Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Pesadelo incómodo



A vida espraia-se como pesadelo incómodo à deriva das águas
Em que o estado de vigília nos obriga a manter o fôlego
Quando estamos submersos na "mó de baixo"
E a respirar livremente quando estamos na "mó de cima"
Com a calma necessária de quem tem consciência
Que vai ser submerso no instante seguinte
E pode morrer de afogamento lentamente
Depois há os tolos que nem se apercebem deste enredo
São os que permanecem felizes para sempre mesmo em degredo!

A poesia vibra tal como a existência
Como se de incontinência se tratasse
Tal como um nascimento que tem imperiosamente de acontecer
De subir à superfície oriundo do mundo cavernoso de sangue
Provocando a terrível inquietação do batimento cardíaco
Pelo pânico e ansiedade onde a convicção anuncia o ato de falecer

Mas a partilha do caminho fortalece os corações
Torna as ciladas e as armadilhas mais visíveis
Os passos menos difíceis e as decisões mais lúcidas
Pois este Mundo é um palco de tábuas apodrecido
À espera de desabar a qualquer momento
Os atores marionetas do medo e da mediocridade
Dançarão nele o último sapateado sem par
E quando o barulho for ensurdecedor
Estará na hora de ruir!
 - Que se erga então um novo lar!



A tirania da imagem




Passo-me cada vez com mais insistência para o outro lado do véu
Onde se sente o quão perto se está do céu
E tocá-lo e abraçá-lo sentindo o trespassar de uma unidade que cintila
Um poder sereno e um ser inteiro que não vacila

As fachadas na sua limitação ocultam o caos
Onde os indigentes se entregam a normas
Arquitetadas pelo diabólico da ganância cega
E sobe-se a escadaria até à forca aguardando crucificação

O rosto do ditador à paisana contém labaredas de inferno
Denunciador de julgamentos superficiais opinativos
Explorando o fogo-de-artifício das falácias
Onde as línguas dos répteis se entrelaçam
Atraindo os ingénuos que se espera que desfaleçam

Anuncia-se então as criaturas sem rosto
Camaleões do mundo e do submundo
Não alvitram mas saltam agindo confrontando
Preparam a mudança das princesas betumadas
Onde as garras de gel se estraçalham pelos fungos das peneiras
Das patologias sem eiras nem beiras
Apenas um eu esmagado pelo peso do cinismo
Sufocando sobre o peso dos objetos
Brinquedos tecnológicos que escondem a armadilha da escravidão
Onde se manipulam os puros sugando-se a liberdade
Para que a vontade de sair do vício seja em vão 

domingo, 20 de novembro de 2016

Incorporação



Misturo-me no acontecer
E mantenho uma relação de estranheza
Com o meu próprio ser
As partículas caóticas estrebucham
Obedecendo à lei recôndita
Dos abismos cósmicos como breu
Enquanto persigo corpúsculos semelhantes
E rodopio na mesma oscilação 
Abandonando o meu corpo ilhéu

Pertenço a algo maior que as minhas mãos
A viagem que empreendo
É repleta de caminhantes errantes
Mas talvez nos juntemos e criaremos um mundo de flores
Ou permaneceremos divididos
Numa encruzilhada onde a difração
Desenhará outros selos novos fósseis
Gigantes estrelas que perfazem
A galáxia de inalcançável dimensão

É que o sofrimento que me prende os pés aqui é tal
Que me amordaça a boca me corta a língua
Me decepa os membros e me amarra ao leito
Que deixa de ser descanso
E cravam-se os pregos no corpo
Que deseja o alívio que a dor para longe varre
A mansidão da morte dos sentidos
É ansiada por outros códigos e ligações
Em que a lâmina deixa em misericórdia de cortar a carne!  

sábado, 29 de outubro de 2016

Estado ondulatório



Abatem-se sobre mim os raios solares
Num macrocosmos que me invade o corpo minúsculo
Agarrado à rocha que faz um pacto livre
Com a melodia fulgurante do mar
Enquanto uma criatura sem rosto cintila
Mensageira do vaticínio de uma longa noite
Na ausência de circunstâncias e ocorrências definidas
Sobrepostas como pétalas de rosa
Umas contra as outras comprimidas

E o espaço descontínuo alarga-se
Na imprevisibilidade das mutações
Praticam-se as matanças como desígnios de exaltação
Das probabilidades que se fazem reais
Filhas da genética dos caprichos transcendentais
Onde o acaso e a necessidade criam difrações
Folguedos rastilhos foguetes e distrações

Não estou aqui nem ali
Salto mundos de vertigem e percorro carrocéis
Que se deslocam para lá da velocidade da luz
Divido-me subtraio-me
Multiplico-me e somo-me
Perante a simetria bela com que me brindo
Venho do mistério embrulho de nada
Não me movimento nem permaneço parada
Estou alada e ao divino ligada

sábado, 22 de outubro de 2016

Ausente



Sofro um desânimo que amortece a minha pele
Ameaça tapar os poros por onde respiro
Aperta-me a garganta onde os alimentos se aprisionam
E não descem ao estômago agitado
Convulsivo desinquieto renegado

Vislumbro uma ausência que cresce
E dentes destrambelhados e estranhos
Que mordem a própria língua e a boca se fecha
Perante o ar passivo e pestilento
Que no cérebro provoca uma misericordiosa brecha

Torno-me ínsula!
Perante os olhares esbugalhados de interrogação
Sou criatura sem fala sem pernas
Aguardando a corda no pescoço
O tiro certeiro o cancro matreiro
O acidente sincronizado com a hora da partida
Porque no mundo humano desfaleço
Minguo definho mirro
Sinto-me atrofiar completamente perdida


Recolhimento



Ultrapassar o canal estreito da agonia
Imposta na criatura feita de sofrimento e alegria
É tarefa cósmica num microcosmos de gritos espaçados
Em vibrações lineares de pensamentos arquitetados 
Pela consciência filha do acaso e do vazio
Onde pululam as infinitas probabilidades
Do ser vulgar que sente o calor e o frio

Saltar para lá destes super poderes
Que nos traçam o passado e o futuro
Que nos obrigam a engolir a saliva ácida da injustiça
Que nos fazem esperar até à exaustão
O iminente deixar de trabalhar o motor fulcral
Do coração agraciado com a explosão fatal

Ah prémio merecido!
Esquecimento alcançado esconderijo pleno
Semente longe da sociedade de inferno
Onde as tarântulas traiçoeiras esfomeadas
Nos consomem até os ossos
E as crianças sem pais esfaqueiam os semelhantes
Formatados para a pacóvia esperteza
De quem negoceia a própria vida por debaixo da mesa