Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

segunda-feira, 31 de março de 2014

Estranha criatura



Qual fera enjaulada serpenteio-me pela casa
As paredes vêm até mim oprimindo-me o peito
Uma mágoa em forma de peso sobre o lado esquerdo
Alerta-me que ainda vivo em enlevos pela música
Que se ouve perto mas que num óbice
Se vai extinguindo para além do espaço feito dor
Exausta absorvo-me por completo
Ainda respiro num esforço avassalador
Para não fechar os olhos de vez
Mas um querer disfarçado quer adormecer e descansar em paz

Hoje por deliberação não irei abraçar-te
Não captarei o teu calor com os meus lábios pelo teu corpo
Não terei o meu melhor sorriso à tua mesa
Apreenderias o lado negro de mim
Quem sabe detectarias a minha áurea sombria de tristeza

Quem disse que o sofrimento tem de ser partilhado!?
Sofrer é para mim um grito de estrada na noite
Um silêncio reprimido agoniado
Num volante que gira no destino das minhas mãos
Na roda da minha existência qual trajecto desesperado

Hoje não irei adormecer a teu lado
Não quero que vejas a solidão em que me tornei
Não quero que reconheças nos traços do meu rosto maltratado
Aqueles que inevitavelmente amei
E os tormentos que me moldaram em barro gretado

Hoje!
Quero refugiar-me em egocentrismo num mundo só meu
Fecho a porta à luz efémera dos nossos dias contados
Dispo-me de roupagens de um teatro ultrapassado
Encerro as janelas aos seres a que me dei mal amados
Atiro para o lixo o meu papel e as falas que num palco me exigem
E plano no vórtice da profundeza do Ser criatura eleita
E como uma doce e aconchegante vertigem!
Quero metamorfosear-me na invisibilidade perfeita!


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