Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 29 de março de 2014

Fraude



Esta estranheza feita trapaça com que respiro
Invade-me as veias latejantes de um desapego
Em que dedos esboçam mundos subtis
De invisibilidades prementes de elos a chorar
Num espaço intermédio mesmo e a rir
Tal cordão umbilical que me faz flutuar
Entre o estático e catastrófico entre o ser e o devir

Esta criatura sensível que se impregna em mim
É a voz do desconhecido em vibrações ardentes
Que permanece enfeitiçada não é boa nem ruim
Entre labirintos subterrâneos escuros e frios
É a fraude gravada no serpentear do tempo
Entre prazeres frenéticos e obscuros martírios

Sou a fraude!
Meu nome é fraude!
Não sou estes olhos com que vejo
Não sou este sorriso com que me mascaro
Tampouco esta vontade com que almejo
Nem a alegria da fantasia em momento raro

Sou a fraude!
Não sou a poesia com que tropeço que garatujo
Nem os desabafos que permanecem no fio enleado
Prisioneiros do duro espeto neste trágico enredo
Não sou pomposamente o discurso estudado
Entre pesquisas de bibliotecas inventado
Não sou as costas doridas de uma alma sofrida
Nem as mãos que passam ansiosas pela tela de cor vazia
Não sou a cobardia que de tudo e nada faz franquia
Não sou a coragem guerreira desbocada
Armadilhada de uma radicalidade sem freio
Não sou este corpo que teimosamente se ergue
Não sou a flor que teima em nascer em adverso meio
Quando é o cansaço ingrato que emerge


Raios!
Sou uma fraude!
Não passo de uma fraude!
Não acreditem em tudo o que digo
Porque o que sinto e não sinto explode em centelhas
No profundo universo para onde emigro
Não acreditem quando expresso que algo me dói
Quando grito que esta falsa melodia me corrói
Quando um ardor me invade em fogo
A garganta asfixiada e a destrói
Não acreditem quando sou o palhaço da festa
Quando contrario as regras e me dispo
Dos cortinados de um palco emoldurado
Espreitando incrédula apenas por uma ténue fresta
Não tenho nada!
Não sei nada!
Sou uma fraude!
Daqui não sou por isso me vou!
Mas acreditem senhores que apregoam a verdade
Sem qualquer réstia de saudade!


Sem comentários:

Enviar um comentário