Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Acidez



A acidez fissurou as entranhas das criaturas
Fragmentando-as em pedaços sem morada
Corroeu as pontes que desabaram em rios parados
Por entre golfinhos saltitantes
Anunciando a mudança a descrença
A inundação gélida imensa

A acidez desfez as serranias
Incendiou as árvores
Sorveu a vida dos répteis
Que se esconderam cada vez mais fundo
Nas cavernas da escuridão no abismo dos mares
Procura os ovos da dimensão temporal
Que eclodem em ninhos demolidores de lagares

A acidez decompõe pragmática
Os ossos dos mamíferos
Que fogem tresloucados
Da intempérie corrosiva

A acidez deforma as bocas e os olhos dos magnatas
Dissolve-lhes as notas os mealheiros
Os lixos os excrementos próprios e alheios

A acidez não tem preferência
Esburaca a pedra
Faz divertida um rendilhado nas montanhas
Deixa a descoberto as vísceras dos humildes

A acidez percorre inominada
Todos os caminhos mesmo parada
É traiçoeira oportunista
Tem para destruição uma secreta lista

A acidez é solitária e manhosa
Morde a presa na calada
E deixa-me a mim criatura sem rumo
Aflita desfeita desorientada

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