Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

domingo, 9 de novembro de 2014

Sobrevivo


Quando a serpente vem enrolar-se a meu lado
Como se fosse a anunciação da vida e não do pecado
Mesmo quando me acorrentam as mãos e os pés
Me trancam entre paredes sem ver
Me impedem do mundo percorrer
Sobrevivo!

Quando em queda descontrolada
Conto todos os degraus da dura escada
Permaneço inerte amassada
Mas a respiração mantem-se
Como se por teimosia ou por obra divina
Preferisse o devir em lugar do nada
Sobrevivo!

Quando dou desamparada
O salto da janela de altura inesperada
Escapando à loucura de alheia jornada
Sobrevivo!

Quando a bofetada de estrelas é arremessada
Transformando o conto de fadas de um príncipe encantado
Em bruxo mau de silhueta deslavada
Quando a justiça lenta e caquética
Coloca o transgressor num pedestal
E pede à vítima que somente se afaste do mal
Sobrevivo!

Quando o projeto de vida se desfaz
Quando a estratégia de improviso
Construída na minha memória
Falha mesmo em esforço o alcançar do sonho
Constrói-se um plano para escapar
À criatura de cérebro decadente insano e medonho

Sobrevivo!
Vivo!
E neste mar alternando
Entre o doce e o amargo
Me realizo!


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