Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sexta-feira, 25 de abril de 2014

A dimensão das sombras



Na floresta negra espreitam criaturas camaleónicas
Na noite calada ouve-se um lamento em forma de grito
Quem será que sofre que se prostra em chão alagado
Quem não tem fé nem esperança mirrando num golpe aflito

Entes possessos vagueiam no lamaçal imundo
Só deles é parido sem consciência plena um abominável gesto
Anulam a vida na sua própria casa já sombria
E criam enlouquecidos e doentes um labirinto infesto

Corre nas veias latejantes uma mistura de fel
Alimentam-se de conflitos do sangue da ira
Insuflam para dentro dos corpos fétidos um respirar cruel
E mantêm um degredo adorado como nunca se vira

Que faço eu no centro deste furação sem controlo
Seres que me comprimem na sua triste cegueira
Carrego a minha cruz e o esqueleto dos outros sem paz
E esmoreço com as sombras à minha beira

Como seguir o meu caminho o meu deleite
Se mesmo liberta de algemas devo aliviar os outros das amarras
Mas quando um escravo ama a sua escravidão
Permanece nos subterrâneos em lugar de ser alegre como as cigarras

Em silêncio abraço o sofrimento
O meu o alheio e sai em bramidos
A dor atravancada pelo mundo em desavença
E a mente calma com que à mesa me sento
Não impede o martírio o apego a contenda

Expurgo o pensamento desinfeto as mãos
Mas não sei lidar com os medos alheios em obsessão
Não compreendo porque a mente não se ergue
Não se amplia para uma vibração de puro perdão



Manipuladores de consciência



Esta era que respiramos é de aniquilação
Como se um estado de acrasia se apoderasse do homem
Que mesmo sabendo que se auto destrói
Continua a tecer a teia da maldade

Nutricionistas do ego exaltam as armadilhas
Enquanto esqueletos de vaidades e fantasias
Se excitam em toques de põe e tira
De estica e encolhe para que a alma se fira

E nesta amalgama de vibrações desconexas
Esfuma-se o querer por dever a boa vontade
Que deve orientar o ato a decisão a intenção
Se o homem evoluísse sem muletas
Sem pai castigador sem medos ancestrais tenebrosos
O lúcido imperativo categórico da dignidade
Tornar-se-ia um simples existir melódico sobre campos viçosos

Ah coragem em nada me consolas
Se me servir de ti para a destruição
Para a cega ambição pois estes agentes autónomos
Ainda são um pequeno número de anónimos
Caminham por aí na invisibilidade
E aqueles que a sua deliberação depende do exterior
Não querem assumir para si a responsabilidade


domingo, 20 de abril de 2014

Aleluia!





Desabrocho um sorriso subtil no meu interior
Ergo o olhar ao céu e contemplo a majestosa lua
Canto em vibração abençoada aleluia
Como se a floração se abrisse em fruta madura

Nasce em fogo a estrela mãe sol
Mergulho a alma em gratidão no mundo das mulheres
Abençoadas as corajosas as que silenciam em força
Como um campo selvagem cravado de malmequeres

Em lágrimas de incontida alegria
Canto em oração de enlevamento aleluia
Pouso em pranto nas pétalas aveludadas das papoulas vermelhas
Que ondulam em suavidade na brisa da manhã em centelhas

Flutuo por momentos sobre um campo de flores
Sentimento de plenitude felicidade e apaziguamento
O meu corpo dilui-se num cosmos multicolor
E o meu ser renasce em metamorfose de salvamento!

Rastos de luz



Observo o trauma do passado
E no distanciamento que dele pressinto
Recolho laivos da mente subjetiva
Que me enleou em novelos embaraçosos
Permitindo ao corpo falar por mim
Mas a recordação de tempos obscuros de insensatez
Fez com que a postura de frustração subtil
Acabasse de vez

A tristeza extingue-se
Deixando de ser tratada como realeza
E em rebelião persistente
Gerou-se no meu coração inquieto a mudança
O corpo doente cansado e ausente
Reclamou em prece à mente sabedora
O seu querer saudável
E a conexão ao sagrado
Expande um coração que outrora foi abandonado

Respira fundo a criatura de amargura
E no seu lugar renasce um humano legado
Porque a confusão esvaiu-se e se fez criação
A criatura fria limitada desceu ao seu âmago
E descobriu o ilimitado do ser que o habita
Entrou na área de acesso que deixou
De ser misteriosa e restrita
Onde não há medo culpa ou desculpa
Porque somos genuínos
Criamos o mundo desabrochando
Em mares divinos

Sabedoria



A separação que teima em permanecer
No coração de quem agride
De quem julga e o bem impede
Se revolta contra a vida rouba engana
Cortou contacto com a natureza mãe
Distancia-se do supremo
Imergindo nas trevas do medo no som do degredo

Ah esta entrega de confiança
É alimento da alma
Pois que me incute a calma
Da mente superior que em cada um de nós vive
Mas que alguns acabrunham dilaceram e desunham
Esta submissão à luz à primordial voz
É a sintonia perfeita
Como se a minha face fosse a expressão eleita

Eliminemos aquela emoção
Que conduz os gestos infectos à degradação
Perscrutemos fundo mesmo neste mundo humano imundo
Abandonemos o superficial a periferia
E entreguemo-nos ao milagre da paz
Sentimento superior de sabedoria  

Reconhecer

 
















As correntes que nos prendem
São fruto da nossa mente cansada
Por intempéries de embates
De quedas sucessivas entre destroços
Estas amarras são alinhavadas em escaras
A que o corpo viciado se acomodou
Mas reconhecer o vício é uma vitória
Para dar o passo estender o braço
É crer na pura glória

Porque renasce a cada instante um poder interior
Que se expande das cinzas e dor
E se transforma em melhoria
Ao vencer a masmorra
Se lançar à terra sementes de alegria

É no êxtase da consciência da vida plena
Que surge a libertação
Onde não há conflito ou raiva ou grito
Onde não impera a solidão
Prontos para seguir em frente
Abrir horizontes ilimitados
E deixar de vez o hábito demente

Identidade



Que logro envolver-nos na crença
Que o que somos depende do julgamento
Que fazem de nós em desavença

Não sou o lugar onde vivo
A cidade onde caminho
Os defeitos que me apontam
Sou consciência transparente
Que aprende com as experiências
Sem atritos nem errâncias

Não sou as qualidades que me enfeitam
Não sou a dolência que me invade
Sem descaradamente pedir
Licença para entrar em mim
Por isso afasta-te tristeza
Que me consomes os passos
Não fazes parte do que sou
A minha consciência maior
Contigo não alinhou
Porque me amarras à cave profunda
Ao abismo mais medonho
Como se fosse um pesadelo
Um arrepiante mau sonho
E a alegria de viver definhou

Mas descubro com as tentativas
Não dependo dos estímulos de fora
Nada pode interferir na luz que sou
Porque a alma é premiada
Com a sabedoria em clamor
Constrói o estado de felicidade
Porque em vibração de gratidão
Ela brota do nosso verdadeiro interior


Este e Oeste





















Dá-me a oportunidade de ter consciência
Deste sol amigo que nasce em cada dia
Esperança no tempo que indica o riso
Pois sem as montanhas iluminadas enlouqueço
Sem as praias quentes e os pés descalços na areia
Não faz sentido o meu próprio nascimento
Por isso esta gratidão com que te pressinto força divina
Transforma-se no meu alimento a cada hora a cada momento

O acontecer vertiginoso sobre o abismo da metamorfose
É incompreensível para as criaturas
Que apenas contemplam os seus pés
Entre o nascer e o pôr-do-sol solta-se um grito
Que antecede a contemplação a entrada no vibrar espiritual
Porque o escuro pode fazer amor com o luar
E outros cambiantes surgem cintilantes na suave escuridão
Fecho os olhos e os murmúrios dos elementos
Inundam-me a mente em reflexão 

Norte e Sul



Perder o norte onde em pureza descansa a neve
É anular a sabedoria primordial a confiança
Que se deve ter no processo caminhando de coração leve
Perder o respeito pelos que foram premiados com cabelos brancos
É ter perdido a bússola que nos orienta
Só ver em egoísmo as nossas necessidades
E espezinhar quem fica inadvertidamente nos flancos

Perder o norte é ter esquecido a ligação ao todo
É confundir a ganância pútrida com a essência da sabedoria
É alienar o pleno o único o que nos liga a todos no plano mental
A força cósmica que nos conduz em harmonia

Perder o norte é desistirmos de analisar o invisível
É entrarmos num labirinto sem luz não querendo a vida perceber
É incorporar num fantoche sem alma 
É negarmos a grandeza do espírito recusando-nos a meditar

Os homens perdem-se num lago pútrido de ilusões
Nem o sul já conseguem vislumbrar
Chacinam as criaturas destroem as florestas
Para construírem a ferro e betão catacumbas de podridão
Esqueceram que devem abraçar a natureza com paixão
Os oceanos as montanhas os vulcões
Os maremotos as tempestades as grandiosas monções