Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 24 de maio de 2014

Deserto



Esconde o deserto um mistério de sobrevivência
Como se o pulsar da vida fosse inevitável
Porque é tal a força a energia que vibra
Que filamentos em movimento
Fazem contrato com a luz
E há mesmo em terreno infértil uma amplitude
Que tenazmente se reproduz

Há uma faúlha de loucura e elevação
Quando se ultrapassam limites
Se erguem obras de consolidação
Se escolhem artifícios em genuína produção

Nesta poderosa engrenagem e perfeita magnitude
O que permanece incorpóreo move o visível
É tamanha a dimensão que levitamos incrédulos
Neste emaranhado sofisticado como teia incrível

A insanidade é a provocação ao gigante
Mas os gestos inquietos têm também em si delicadeza
Pequenos mesquinhos animais da terra
Que guardam dentro do coração surpreendente grandeza

Não será a essência humana ainda mais elevada
Que mesmo persistindo o seu ânimo no deserto
Se levanta e sobrevive depurada?
Afinal o deserto é apenas uma semente
Um código querendo explodir em vida
Em qualquer tempo em qualquer espaço
Há sempre uma estrela que nos dará guarida


Sibilar da vida



O sopro fertilizante ondula na montanha
É gigante a força o rodopio
Que ergue no ar a mais pesada carga
E em flutuação delirante
Mistura os elementos por arrastamento
E tocam-se em tentáculos de beleza
Estilhaçam-se num reviver constante
Nada pára nada é inerte
Tudo obedece ao divino movimento

Danço frenética participando
Na avalanche em formas de variações de líbido
Capto manifestações audíveis
Como notas musicais em perfeito rugido

E eis que se dá o reencontro a folia
O extravasar de uma justa alegria
Porque as cores das flores
Surgem como homenagem à glória
Do eterno deslizamento de idolatria
E o ribombar dos relâmpagos sibila
Como se fossem feitos do olhar criativo que nos mira 

Os jogos de erotismo são laivos de centelhas
Irrequietas em cada momento belo e precioso
É uma valsa em rodopiante deslocação
É um desarmar os escudos
E fabricar arquiteturas em imponente armação

O sibilar da vida acontece em plena batalha
Quando entre inimigos se dá o abraço da extinção
Quando a fúria impera e falha a confraternização
O sibilar é um jorro que sai das entranhas em escuridão

Se agita e faz-se luz num sagrado clarão

Verdade absoluta




Porque tem o homem necessidade de explicar a existência
Procurando avidamente a verdade absoluta
É tempo perdido porque a verdade permanece oculta
Indagar é destino humano no jogo do eterno
Perde-se este vivente em provar coisa nenhuma
Falácias lógicas ergonómicas danças com os deuses
Onde tudo é permitido em velocidade alucinante
Livre arbítrio onde nada é impedimento
À deriva das vontades escritas no vento

Pois nesta luxúria animal não há bem nem mal
Nem melhor nem pior
É uma mixórdia em que nos embebemos
Indivíduos que esqueceram qual o seu genuíno lugar
Nesta ausência de sentido ritual das amarguras
No galopar da indiferença das criaturas

Ahh!  Esta sobrevivência macabra
Que parece um suplício e não mais acaba
Que me faz agitar exausta desta oscilação
E me faz desejar ir para um lugar manso
Um pôr-do-sol ameno sem me preocupar com precisões
Com maldades chacotas e derrotas
Tropeções esconderijos e multidões de insanidades profundas
Eu e a espuma das ondas somente e esquecer de vez

Este viver abalroado de existências imundas

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Marasmo



Este marasmo feito exaustão entranha-se na mente
Que se dilata ao ser mas que traz consigo
Um ardor que sobe pela garganta
E transforma em dia cinzento
O que outrora era nuvem branca

É uma experiência de vertigem incontrolável
Como se o corpo procurasse o chão do seu sustento
Desistisse de respirar e teimasse
No absurdo de se manter de pé
Mesmo sem visão sem fé

É amargo este desmaio consciente deste ser desfeito
Esquartejado dividido acabrunhado
Há um grito que espera ser solto
No alto deserto da montanha
Pois que a revolta extravasa
E pressinto que a cada momento pode estilhaçar-se
Num arrepio de pele que transborda

Mas esta sede marca-me o compasso
Do tempo impreciso cínico cruel
Disciplinador e ameaçador
Assisto ao desenrolar da serpente
E a velha ameaça retorna concisa  
Fita-me confiante e no lago da vida imerge
Mas surpresa!
O reptil repugnante não me destrói
Mas deslizando em redor de mim
Num perfeito anel dá-me espaço e protege

domingo, 18 de maio de 2014

Pedrinhas



Saltar os obstáculos é uma luta abrupta
Tantas vezes caímos outras tantas nos levantamos
Que talvez a nossa bússola esteja errada
E o que outrora projetámos para nós
Tenha feito parte de qualquer obra misteriosa
Para sempre oculta inacabada

O poder da luz ultrapassa o respirar pela metade
O poço de escuridão que é a maldade
E esta amaldiçoada falta de vontade
Que nem muda para melhor
O que ao nosso alcance está
Quanto mais pretender alcançar
O que longe de nós permanecerá

O salto depende da energia que temos
Da determinação que incutimos
No empreendimento da vida
Onde a lei é pedalar continuamente
Até que o projeto maior
Deixe de nos dar guarida

Os desejos temporariamente se alcançaram
Mas em mim não ficaram e caminhei rezando
Aceitando outro registo pois no antigo já não insisto
Parei e desviei as pedrinhas do chão que piso
Assimilei outra dimensão outra forma de perspetiva
Uma nova expressão
A toalha que cobre a minha mesa é branca
E os que vierem por bem entrarão na dança do desapego
Da alegria em expansão

Tive um filho escrevi um livro em forma de oração
Falta-me plantar uma árvore que seja forte
Persista nas intempéries de inverno

E sobreviva no calor escaldante do Verão e supere a morte

Ritual do sorriso



Porque é que a tempestade medonha
Não pode ser a perfumada brisa
Porque é que uma doença não pode ser
Um grito de alerta e uma lição de vida?

Por que razão havemos de nos alagar no nosso choro
Se podemos combater as lamúrias
Se devemos prevenir-nos contra as incúrias
Se um sorriso mesmo inesperado alivia
Se um riso entrelaçando olhares contagia

Torna-nos mais leves faz voar e atenua as dores
Porque temos de viver num deserto
Porque temos de aceitar o desespero do incerto
Se temos um sorriso por perto
E o desalento se transforma em flores