Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quinta-feira, 29 de maio de 2014

As lacunas da linguagem



Anda o ser casado com o ter
O ter amantizado com o poder
E é de tal tamanho o equívoco
Onde tudo se mistura à mesma mesa
Onde a ambiguidade é rainha
E a vaidade do homem serpentina

Os ideais esvaziam-se de conteúdo de substância
E esmorecem sobre vertigens apagadas da memória
Porque vibrações obscuras dançam à espera de recetáculo
E surpreende o mais desprevenido que ignora
Que pode desligar o botão e sintonizar outras latitudes
Deixando de se manter em piloto automático

É engenheiro general jardineiro professor
Pois eu nada sou senão um incerto vendaval
Já não sou agora!
Meu nome é processo acontecer impermanência
Irreverência transformação metáfora
Um tornar-se como um furação
Que rodopia inquieto em terreno aberto incerto
Milhões de processos infinitos
Tapetes gotejantes a vibrar
Na ânsia em desejo incontrolado de continuar 

O espelho da consciência


Quem dera tivesse eu a capacidade
De me ausentar deste corpo derreado
E num silêncio envolvente pudesse acalmar
O ser com que subsisto neste reencontro de mãos

Sem sim sem não sem juízos de valor
Sem bom nem mau nem belo nem feio
Apenas deslizar o botão desta irracionalidade
Que nos abalroa a mente
Convence que tudo sente
Debaixo deste sol escaldante

Voa para longe pensamento
Não me manobres não me tentes não me crucifiques
Não me aprisiones a inteligência
Nas catacumbas dos medrosos 
Porque não consegues evitar a procura interior intensa
Este eterno abraçar do entendimento
O universal mistério do viver puro alento


Não saímos da carapaça



Somos muitos somos tantos tão ausentes
Degradantes de artifícios dependentes
Delicodoces divididos amargos
Fechados presos em favos

É o conforto do escravo
Que se convence que é doce
O que de facto é amargo
E permanece eternamente castrado
Sob ameaça de ignorância inundado

Homens que funcionam separando os meios dos fins
Onde tudo é ambição destruição
Na senda do poder do dinheiro
Chafurdando impunes na corrupção

E nós permitindo a estes vampiros da degradação
Que amplifiquem os seus risos
Os falsos juízos as chalaças
Como podemos assistir a este teatro trágico
Onde se repete o mesmo guião
Será que o homem não tem vontade não tem identidade
E também não tem coração?

Eterna demanda



A estranheza que sentimos é genuína
Como se o corpo físico a que estamos ligados
Fosse um mecanismo de deslocação primitiva
Sujeita às intempéries e a uma inevitável queda

Mas a partilha da alegria supera
A incongruência com que nos moldamos
A indignidade com que nos relacionamos
E na reflexão sobre o inalcançável
Ritualizamos a celebração da vida
A exaltação da perpetuidade

As armadilhas da mente inquieta
Que a todas as perguntas anseia dar resposta
É o prato nutricional com que por engano nos alimentamos
Mas as questões assim como as conjeturas são infinitas
A intelectualidade com que nos selecionamos imperfeita
Manter a consciência do mistério é saber respirar
Com o sentido de gratidão sem juízos sem respostas
Apenas sentir com o coração


Existência com significado



Onde vamos nós descobrir o significado
Para os nossos gestos os nossos desejos
Como podemos ser felizes com a mesmice
Com a rotina que contamina?

Somos seres de autonomia
Ou fruto de programação automática?
Respiradores de elementos poluentes
Ou criaturas individuais
Inteligentes e conscientes com uma morada
Que sabem fazer de um gesto simples
Uma postura sagrada

Mas a loucura pretende
Que nada no universo faz sentido
E surge a demoníaca questão
Porque não a experimentação?
O ultrapassar do limite sem valores
Provocando um vazio na mente
Por onde entra a maldade a matança
O delirar com a tragédia
Onde nenhuma certeza se alcança

E de lógica macabra em lógica macabra
Esfola-se e mata-se
Salta-se da janela
Acaba-se com a vida
Esquarteja-se disseca-se
Corta-se em bocados infinitos sem motivo
Como se o ato fosse rápido e inexistente
Qual faísca em fração de segundo qual silvo 

Arrastamento



A multidão é anónima não existe
É apenas manifestação de forças de gestação
Mas a linha que separa um empurrão gigantesco
Para a mudança necessária e o puro extermínio
É fraca e pode quebrar-se a qualquer momento

Por isso não me empurrem não me coajam
Não me obriguem nem descaradamente
Nem com golpes de psicologia subtil
Não entrem com artimanhas feitas de ardil 

Não pertenço à multidão
Não vou no arrastamento empedrado
Há uma repulsa que se instala em mim
Pelo desbravar da justiça cega de quem mente e nega
De quem maltrata e é premiado
De quem cria trabalha
E na sua dignidade é injustiçado

terça-feira, 27 de maio de 2014

Instrumento útil



Estranho!
Que a sociedade humana
Se venha transformando
Numa indústria de aperfeiçoamento
De instrumentos úteis
Fazendo das crianças seres contrários
À sua natureza onde outrora
A inocência reinou

Insurjo-me!
Que o ideal de educação
Se venha extinguindo
Numa fogueira apagada
E que a fumarada final
Seja o vestígio de uma formação humana
Que a si mesmo se profanou

Lamento!
Que o conhecimento seja
O palavreado do cego e pomposo
Dos que se deixam levar
Pelo engraxar do ego
Num preenchimento abrupto do vazio e da lacuna
Na obrigação de acharmos
Que toda a pergunta tem resposta
Mesmo quando a questão é chalaça
E o espírito primordial

Dela se ausentou

Fragmentos



Somos pedaços de céu
Que se esqueceram nas sombras geladas como breu
Fragmentos dispersos da natureza mãe
Onde energias celestiais controlam o corpo dúbio
Moldado pela cultura onde a tradição é tacanha
A inércia instituída é tamanha
Que comprime a força do cosmos
Contida em cada mente humana
Que nasce aberta para a vida

Somos fragmentos apenas do nosso ser maior
Que amarrámos a um poste em praça pública
Fizeram de nós o que quiseram
Convencendo-nos que o caminho
Era o que nos diziam e almejaram

Falsa orientação!
Esqueceram que o que somos
É a simplicidade  do que nos faz feliz
Mas este modelo de sociedade cria
Autómatos desencantados sem entusiasmo
Onde nada se ergue nada ondula e tudo é raso

Pura astenia!