Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Esquecem-me os dias



Esquecem-me os dias robóticos de gestos mecânicos
Onde o cansaço finta o querer o prazer
Apagam-se da memória os momentos sincopados
Enfadonhos medonhos de repetição
Em que só pela sobrevivência
Se enlaça se salva a fulcral ligação
Cada passo é preciso conciso e o corpo sintoniza o programa
Avançando em mais do mesmo desalmada encenação!

Nem mistério nem descoberta nem desafio
Nem entusiasmo nem brio
Estou num palco antigo bolorento
E nem luz num só postigo

Não há atores!
Foram todos em digressão forçada
Com a trouxa às costas com diplomas assinados
Em dolorosa excomungação
Deixando um espaço sombrio sem poderio

Estou triste!
Não sei se sou eu que invento estes guiões que fantasio
Ou se há em mim um centro que resiste
Que se rebela que persiste a este abatimento
Feito de friezas superficialidades e delicadezas
Ou se criamos caricaturas de asnos praticando proezas
Fadas do bosque e super-homens
E fazemos uma miscelânea com os ingredientes da tragédia grega
Onde o político corrupto é rei
O ladrão multimilionário escarra na grei
E não há ninguém com nome de gente
Que desmascare o enredo apodrecido putrefato
E num golpe preciso consciencialize o vilão
Que o comum dos mortais na terra
Está saturado de salsadas ciladas acabrunhadas
Indigestas aguçadas vaidades cegas
Egos de vermes de cabeças intoxicadas!

Estou triste!
Ainda bem que a solidão me acompanha!
Logo mais vamos tomar um chá juntas
Em silêncio porque mantenho-me farta de palradores
Que me atonizam a mente invadindo-me os ouvidos
E mexem com a minha sensibilidade e inteligência
E não quero sementes de criaturas famintas de tagarelice
Na minha vida na minha sagrada impertinência! 


quarta-feira, 4 de junho de 2014

Escada



Onde me conduz esta escada que tenho diante de mim
Ao mar à montanha ao aglomerado de gente anónima
Ou à pureza cintilante de um jardim

Subir a escadaria ou descê-la?
Ficar parada ou transitar para um estado de escravidão
Onde rebanhos me aguardam me empurram me programam
Com um número de identificação no meu semblante a pairar
Com um rótulo no meu rosto em perfeita acomodação
A uma linha de montagem onde não tenho de pensar

Em pegajosa dolência inércia e sandice
É mais fácil este estado de caminhar descendente
Mas não vou descer até à lama onde todos se perfumam
Com as fumarolas peçonhentas dos pântanos

Há uma orientação um olhar que se ergue
Em direção ao caminho ascendente
Sem olhar para baixo porque a vertigem é enorme
E a verdade espera mesmo em dificuldade
De perceber o caos porque aceitá-lo é também crer na liberdade

terça-feira, 3 de junho de 2014

Casinha branca





Existe uma casinha térrea para onde o meu ser se dirige
Há no branco das paredes uma mensagem
Que ela envia ao sol e ao vento
Diz ela que se ergue em perfeito abrigo
E que se guarda para mim em cores de infinito

Sabe que gosto da pureza das gentes que a envolvem
E em lugar secreto protege as sementes das flores
Que um dia plantarei num pequeno jardim
Nas traseiras da sua simplicidade cheirando a alecrim

Há uma pequena lareira acesa
Para que permaneça sempre uma luz subtil
Nas noites mais longas de Inverno
E uma cadeira de vime onde desfolho serena
E concentrada as páginas de um livro
Envolta num cobertor de quentura amena

Na entrada acomodam-se vasos
Canteiros de rosas brancas onde cintila a paz
E variantes de vermelho cor da luta da paixão
Do inconformismo na escolha da solidão
Porque a minha viagem ainda se faz
Ao som da melodia do amor
Por entre ondulações de malmequeres
Sem grandes desejos ansiedades e quereres


domingo, 1 de junho de 2014

Onda



Que perceção a nossa tão limitada
Tão estagnada tão convicta tão ansiada
Como tudo é formatado endeusado
Criando o mundo com as cores que interiorizamos
Paramos os objetos no tempo
Enfeitamo-los a gosto e de real os rotulamos

Mas o que vemos é tremido
Espremido pelo intelecto
E ignoramos que a onda que se forma em alto mar
Não é a mesma que invade o areal
Pois este mutável impreciso não se pega
Não se toca porque as mãos
Esvoaçam e perdem-se no vórtice do continuar

Diluo-me!
Estou perto de diluir-me!
A consciência precoce sempre pegou em mim pelos ombros
E sacudiu-me até entontecer com a velocidade abismal
Do ilimitado fenómeno energético entre laivos de assombros

Ergo os braços em direção ao céu deitada sobre a terra
E os membros guardam-se como se tivessem um atilho uma amarra
E num gesto automático formulo um pedido
De libertação do meu ego do meu mundo desta maçada
Para expandir num vácuo de paz decorado a nada