Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Chegar ao topo



Guerreiam os homens para chegarem ao topo
Em ganância desenfreada procurando o eterno
Enganam-se as feras desbravando a fama
Em ignorância não sabem que neste mundo
Tudo se esfuma e indelevelmente se transforma

Para ultrapassar o transitório
Erguem barreiras sobem montanhas
Compram os votos em falsa glória
São cegos surdos e mudos
Pois não captam a linguagem
Do ser genuíno que em tudo aflora

O sentir de inferioridade que lhes amarga a alma
Conduz a criatura desventurada ao floreado prestígio
Entre máscaras sorridentes gestos incongruentes
Esconde-se o ser macabro sem intuição e sem juízo

Alcançar o cume é entretenimento pura falácia
Quem chega ao degrau mais alto
Ou regressa ameno ou enlouquece
Agarrado à personagem imagem da chalaça
Qual ditador que não quer largar o trono
Mesmo que o mundo se aniquile pouco lhe importa
E na sua imbecilidade transforma
O belo e o bom em feio e medonho!


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Não tenho sapatos!



Perdi algures os sapatos de plebeia
Ficaram esquecidos na sala
Um compartimento que não me pertence
Decorado em estética alheia

Não entro!
Não me diz nada aquele espaço
Enfeitado com móveis e austeros quadros
Nem um passo dou em frente
Não preciso dos sapatos!
Aquele lugar retangular de paredes frias
Está disfarçado de conforto e é jaula
Sinto em mim uma luta
Relutância em  invasão
E gemo pois não entro ali
Nem coagida com um empurrão

A dor invade-me
Quero fechar aquela porta
Talhada a regras pregada a disciplina cega
Cravada de aparência de superficialidade
E no centro do meu ser leio a força da oposição
Porque aquele chão sob os meus pés sem atilhos
É feito de pó e degradação
Não vejo grades nem cadeados
Vazio de criaturas está
Mas vejo no compartimento uma negra prisão

Não entro!
Não quero entrar!
Prefiro viver descalça sem estatuto sem riquezas
Sem posição nem conforto
E volto a ser criança descalça pela rua
Contacto com a terra com a relva
Por entre o som das árvores
Ouço o murmurar dos ribeiros
E absorvo a luz da paz da alegria numa dança em rodopio
Vibro palpitando de entusiasmo
Descarrego a energia do mundo sombrio
E o vento ameno mas preciso toca uma flauta invisível
Como um mensageiro que transporta consigo
Uma missiva mistério bem disfarçada em assobio