Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 12 de julho de 2014

Inútil





Pavoneia-se o génio da matemática cega
Da tecnologia coerciva e viciosa
Descobrindo como viajar daqui à lua
Como fazer trafulhices em cada casa em cada rua
Porque a multiplicação só salta para dentro do seu ninho
E dá ao faminto o assombro da diminuição crua

O algoz dos telhados de ouro dilata-se
Como criatura tentacular sugando desperdício
Pois quanto mais junta maior será a podridão
Sem se aperceber que putrificará com ele
Em rematada decomposição

Inútil maquiavélico dos pântanos
Não quer saber de filosofias
Vicia-se em informações várias
Para que possa ter um trunfo
Cortando a mão de quem quer dignidade
Senhor do disfarce e do engano escamoteia a poesia
Para que em enredo de falsidade possa sair vencedor
Minando com fronha de inteligente a genuína sabedoria

Salto no escuro



Surgem as sombras quanto menos se espera
Elas espreitam oportunistas quais hienas
Esperando a abertura para preencherem
Espaços de crise austera

O impulso da destruição enfeita-se de beleza
Seduzindo com danças fantasmagóricas os insanos
Espraiando-se o anjo da morte na sua crueza

Alastra-se o mundo da punição
Dos falsos testemunhos
Do imperioso perdão

Brota à superfície contaminando a flora e a fauna
O rio encanado pela avidez devorado
Patologia suspensa das estrelas mais longínquas
Escondendo em invólucro alienado

Uma variação de melodias
Para cada um dos dias
Trespassando desejos
Quereres e ensejos

Delapidando corações de morcegos
Peritos no escuro
É então que o medo à solta é capaz de explodir
Com portas e janelas
E saltar qual suicida o alto muro!

Punição e prémio



Só faço se me deres!
Só cumpro se me pagares!
É a mesma lenga-lega a mesma canção!
Portas-te mal levas castigo
Não cumpres levas punição
O que é subtileza manobra corrompida
Jogos de força e poder pura degradação
Que não conduz à elevação à união

Esta raça humana comporta-se pior que as feras
Vivendo dentro do casulo do parasitismo
Sem ligação cósmica
Sem sentido de metamorfose
Transmutação impermanência
Não interiorizando que a beleza da vida
Está no caminhar erguido
Desbravando o sentido
Escavar com profundidade
Abraçar inocente as criaturas
Pulverizar as amarguras
Não dar ouvidos a psicologias de mercado
Que maltratam e manipulam o indivíduo

Punição e recompensa são negrumes
Palavras vazias ocas de luz
Por onde não cintila crepitante
O amor e consciência
E eis o resultado
Prisões cheias por atos tresloucados 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Rebeldia



Há outras formas outros modos
Outras mentes outros engodos
Outras cintilações sem cheiros nauseabundos
Sem estratégias de aniquilamento
Sem falsas revoluções sem negras inundações
Sem incoerência
Apenas um planar tentacular
E a negridão em ausência

Deixar a idiotice da eternização das normas
Não adormecer no engodo das velhas reformas
Saltar o muro transpor o rio cortar os laços
Anular as invejas as raivas as vinganças
Vibrações em degredo que nos cortam as entranhas em pedaços

Mãe consciência inunda esta tempestade
Com que nos extinguimos
Com discernimento apaziguados
Acaba com os complexos de inferioridade
Camuflados em tronos de poder
Pois na encruzilhada no caminho teremos
Cada um de decidir se queremos
Afundar-nos na sintonia das patologias
Ou se seguimos o sentir da harmonia e o bem-querer