Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Deslumbramento



A alma que se deslumbra com o sol
Com o mar com as estrelas
Desliza no carrossel do encadeamento
Perfazendo-se em transparência transversal
Ao estonteante acontecer como um jorro irrequieto
Que brota em alta pressão qual torrente de vida
Em fervilhante fusão desmedida

A alma que se interroga entranha-se
No diluir luxuriante dos elementos
Num momento falsamente separado
E num passo de dança irrequieto
Transforma-se em espírito endiabrado
Em gestos de transposição
Em auras multicolores de música
Num expandir estonteado de intuição

A alma que se entrega à vida desfragmenta-se
Em consciência de si e dos outros
Enlaça os seres
Envolve os quereres
Como boa vontade
E derrama serpentinas de um amor vibrante
Que se renova e abraça incessante

A alma que festeja que ri e almeja
Rodopia em êxtase de ligação ao cosmos
Entrelaçando vibrações
De saltos quânticos em sublimes comunicações
Porque nesta estrada que nunca está parada
É o regozijo do ser em preterição do nada


Boca fechada



Esta boca fechada desmaia em voo
Sobre o penhasco do paradoxo mais alto
Silencia-se na feira onde se compra
E vende descaradamente tudo ao desbarato

Esta boca fechada é traçada
Na corrente da demanda
Como o balançar incógnito transformado
De entusiasmo crepitante em corda bamba

Esta boca sente a incompetência das palavras
O limite diluído das cortantes amarras
A ausência de um saber de mistério
A dor acutilante das eternas escaras

Esta boca fechada é a cortina da fortaleza amada
Envolta no misticismo da vida
Na vontade das estrelas
Que jamais permanece parada
É a experiência que se dilui no ser
E nunca no abraçar da vida está realizada

Fluxo



De onde brota esta linfa que alimenta o ser
Que corrente labiríntica é esta que nos conturba
Que nos faz pensar que é permanente
O que não passa de transitoriedade surda

De onde brota esta seiva que parece moeda de troca
Onde os mundos obedecem à permeabilidade
E os fluxos se derramam em manjares
De predileta nutrição e aprazíveis momentos
Que gritam nestes entrelaçamentos de luzes
Para onde navegam nestes cruzamentos?

Mente que me manobras que me confundes com o verdadeiro ser
Me toldas para que não veja a miscigenação
Para que não sinta as dádivas do coração
Para que não admita que tudo é erupção
Que este cosmos é semente é passagem
Onde os elementos se enfeitam se afirmam e se estreitam
Em sólidos e líquidos em trespasses

Qual gasosa fumegante invisível aragem