Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 2 de agosto de 2014

Tempo de celebrar



Cabisbaixos inconscientes perdidos
Egoístas amedrontados gananciosos depravados
Criaturas contemplando o seu umbigo
Desreguladas aparvalhadas num espaço esquecido

Despertem!
Dancemos em bonança neste paradoxal tempo
Brindemos ao absurdo mesmo sendo poço sem fundo
Porque a perspetiva é baralhada a cada momento

Festejemos no rio que escorre galáxias cintilantes
Banhemo-nos nas águas cálidas do fascínio
Porque a vida é processo é manjar de sempre
Mas a corda que nos prende também nos diz
Para mesmo em soluços de dor seguirmos em frente

Idolatremos as montanhas as árvores os oceanos
Ergamos os braços para o cingir vulcânico
Onde a vida se recompõe e explode
Em vibrações eternas de hipnótico extasiar

Há um acontecer crepitante e caótico
Esvoaçando perentório pelo cosmos
Pulos de exuberar em puro festejar
Onde os túneis labirínticos se esbatem
Para que os seres possam em renovação celebrar
Sem infortúnio nem benefício sem ir nem ficar
Apenas um estilhaçar acordado em ondulações de embalar


Semente



Os elementos estalam em danças encantatórias
Implodem em cantorias de florescer
Em gestos de nudez gigantesca e assumida
Volteiam sobre si próprios
Estabelecendo novos rituais de acasalamento em vida

Baralham-se as substâncias em premente dilatar
Criam-se esbaforidos outros estados noutras perspetivas
Criam-se passagens em laivos de expandir
Cavam-se túneis espaço- temporais de passagem
Faíscam as fagulhas a saltar
Esvoaçam genomas como eterna aragem
Rebenta o amor faminto de se entrelaçar

Subtrai-se enfim o degredo a sombra a morte
Átomos rodopiam em materialização de um povoar
As partículas crepitam com a sua sorte
E num jogo de beijos impúdicos manobram o expelir
Trocam fluidos calores e entram no estado de ingerir
Pois nem tudo o que se enterra mesmo imperfeito e torto
Está definitivamente e absolutamente morto!

Pigmentos de malvadez



Não se explica o estilhaçar dilacerado de almas
Neste espaço sombrio onde as feras
Se aglomeram rasgando a presa
Cegos cabisbaixos somos comidos
Atrofiamos deslizando acorrentados
Desenganados na nossa pequenez
Criamos espaços onde a degradação tem poder
Feita de faiscantes pigmentos
De guerrilhas paranoias e armadilhas
Que só a alguns medíocres de alma satisfaz

Manchas de irracionalidade de autodestruição
Alastram-se contaminando os seres
Autómatos programados alienados e desgraçados
Sem amor sem perceção
Sem consciência dos contratempos
Pontos reunidos de vírus que se alastram
Multiplicam o estado demoníaco de malvadez
Provocando divisão desunião
Carnificina e tormentos
Levando as criaturas sem ação
À postura de aceitação
Vestidos de medos e do manto obscuro da estupidez
Permanecendo o Homem cada vez mais afastado da libertação

Manipuladores de gente



Saltam na corda pendurados sobre o precipício
Os preconceitos sufocantes da mente doente
Insiste em manipular diabólico o engravatado
Sentindo que é poder e pode espezinhar gente

Criaturas amedrontadas cobrem-se nas suas capas
Brincam intoxicadas dependentes de botões
Em ícones de face demente
E os pobres de espírito coitados
Nem dão pelo aperto da serpente

Quem governa mortifica maltrata subjuga
Como padrasto desequilibrado que maltrata crianças
E na avidez de conhecimento
Não nos damos conta
Do falso contentamento incoerente
E em lugar de nos rebelarmos
Em vez de para longe os abutres pontapearmos
Aceitamos hipnotizados o manipulador indecente

Mão decepada



Uma parte de mim é abatida
Por entre a dança frenética do cosmos
Na minha pequenez esbatida
Volteando em redor de sóis
Desisti de procurar guarida

A mão esquerda amputada
Deixou de estar em mim ancorada
Porque tudo é temporal
Neste rodopiar sem bem nem mal

Porque és amor dedicação
Mãe empreendimento oração
Consciência em perdão
Porque no teu silêncio de aprendizagem
Encontrámo-nos aqui terrenas
E empreendemos florida viagem

Aponto então com a mão direita
A caminhada final
Num abraço de união e carinho
Incentivo-te na saída do temporal ninho
E oriento-te  em direção
Ao topo da hierarquização