Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 9 de agosto de 2014

O voo do falcão



A luta que travo acontece
Entre a arquitetura do asfalto
E a imbecilidade eterna de mostrengos viscosos
Que cacarejam em poleiros imundos
De odores agonizantes e pântanos profundos

Levanto voo do lodo que me enoja
Da lama que asfixia a flor
Que se quer viçosa
Enquanto no silêncio traço o meu rumo
E ignorando a dor que verga a alma
Inicio a subida do aprumo

Não sou destes palcos!
Nem deste oceano nem destes barcos
Sou feita da tranquilidade de um campo verdejante
Onde rebolo de entusiasmo pela frescura das ervas
Onde seres de inocente saber resplandecem comigo
E nas águas amenas de um lago dançamos ao mistério
Afastando a insanidade do ego paupérrimo

Se permaneço no obscuro humano
Corro o risco de ser falcão domesticado
Perco a essência anulo-me na falsa cadência
Perco a liberdade cortam-me as asas
E caio por terra qual ser alado
Corrompido e esfacelado!    

Mãe melodia



Recupero o ritual encantatório da luz
Que se espraia sobre ti ao abrigo
De beijos discretos com que te envolvo
Ao sabor do toque subtil nas tuas mãos
E sei que centelhas de vida se dilatarão
A partir da tua profunda essência em expansão

Transponho agora os abraços que não tive
As brincadeiras de ausências
E somos apenas papoulas ao vento
Brotando em anelos com o universo a semente
Num campo imenso florido ao céu aberto
Que teima na eterna renovação consciente

Permanece materializado o processo do acontecer
O legado da honra da honestidade da temperança
A determinação o empreendimento a realização

Não há lágrimas porque se escoaram
Outrora no rio da intempérie
Desaparecem os juízos de valor
Porque são como o fumo
Em fogueira extinta sem idade
E resta apenas o serenar do ser aqui e agora
Transpondo o portal da invisibilidade


Mistério



A avidez desenfreada de conhecimento
Gera subterfúgios de enganos
Exploração humana e jogos insanos
Sem beleza sem fulcral sabedoria sem mistério
E eis que desta forma se cria
Um conturbado e maníaco império

Para onde foi levada a inocência
Onde se escondeu o ritual
Da celebração e encantamento
O coração aberto ao fascínio
Que decisões e enfeites
Conduziram o homem ao martírio?

O que fomos o que somos esquecemos
Mas se recuperarmos inquietos e extasiados
O estado dócil de criança
Talvez dancemos na areia da praia descalços
E vem-nos a sagrada maturidade à lembrança