Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Ausência



Vai chegar o dia em que procurarei apenas o silêncio
Disfarçado na sonoridade da água de uma ribeira
Que corre por entre penedos ásperos
Em forma de rugosidade perene

Vai chegar o dia em que abandonarei
Os risos os choros os histerismos
De quem nasce e oscila no balouço incerto
De uma vontade de poder
Num programa de domínio ávido de permanecer

Vai chegar o dia em que darei ouvidos
Ao ritmo do meu coração
Às palpitações da minha pulsação
Porque este desmaio anunciado e adiado
Corre o risco de implodir sobre mim

Está a chegar o tempo de descansar
Porque nas minhas veias corre a aguadilha da exaustão
Que me arrasta inevitavelmente para outras paragens secretas
Para outra dimensão
E este serrar de olhos é uma prece de alívio
Envolta numa metamorfose em rebelião