Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 1 de novembro de 2014

Náusea



Agoniam-me as palpitações abruptas nas veias
Que me percorrem  debilitada num turbilhão
Pois a vertigem inquieta que se cola a mim
É camaleónica e acelera para o desfalecer descuidada
Sinto o corpo cair espalhando-se pelo chão
Enquanto me enclausuro entre interstícios na calada

Em trepidações que me sacodem o cérebro
Entro no mundo neural do esquecimento
E é então que pressinto os meus pés em mudança
Tentando conviver com a desestabilização
Os membros acorrentados tateando a segurança

Dissolvo-me no pântano em fumarolas de alienação
Onde  abusa corrompe manipula o ditador invasivo
Entre o diluente acutilante  do tempo acanhado
Ocupo o espaço de uma partícula fétida
Troco carícias de fricção com o desinfetante galante
Entre os socalcos profundos do caos degradado

Confundo-me com o exterminador negro
Que salteia a sopa sedutora envenenada
Arrasa a ânsia de vida colorida
 E se afirma vaidoso pela miscigenação debandada

Que raio fazemos nós nesta estopada escrava e calada?
Quero afastar-me deste enjoo
Em que as entranhas parecem saltar da boca desbocada
E o coração sopra batendo na porta fechada
Quero partir em direção à libertação do ser
E aniquilar-me na pretensão do nada!

Exaustão



Não sei porque continuo robótica e em jeito de marioneta
Passo adiante qual engenho em teimosia de coragem
Esbofeteando a inanição proibindo-me de tombar neste barco
Que balança desnorteado sobre onda revoltada
E me provoca a palidez dos que se ausentaram
De um corpo cápsula que já não serve para nada

Este absurdo sem rumo com que me cubro
Tem a cor do calabouço da luta do tormento
Esta luz peçonhenta queima-me a pele ressequida
Por oxidações incongruentes num acontecer sem medida
De quem só subsiste anulando-se em tonturas
Que me cerram os olhos e turvam o olhar cansado
Pelo esgotamento e fraqueza
De um coração que abraça alheias loucuras

Engulo a saliva em desmaio abrupto e cuspo agonia
Mascarada de dúbia fantasia
Onde palhaços esvoaçam pintados de sorrisos
Em mímicas provocações de alegria