Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Deformação





Cada cromossoma me anuncia a degradação
Igual ao sopro que percorre um túnel de vento
Em rodopio constante ansiando alcançar
O outro extremo de uma meta imaginária
Falsificada de enfeites insuflando egos
Desesperados extravasados no processo
Da destruição de partículas de rótulos cegos

Deteto neste baile de irrequietude
Uma centelha esvoaçante
Indignada com a festança da parada
Como se explodisse
Pois não encontra pousada

O pé calejado de modas e correrias
O braço magoado de pesados abraços e mialgias
A humidade que se entranha nos ossos
E corrói a partir de dentro
E o coração pesado que deixou de ser crente

As pernas que se ressentem
Do choque abrupto das passadas
Um incómodo agudo no centro
Comprimido pelo grave desequilíbrio
Os olhos que não têm capacidade de focar
Mesmo perto para cá do mar

Que importância tem?
Tudo vai!
Desaparece renasce e de novo vem!
Nada tem importância!
A respiração do momento
Em que a vibração se afasta
Da ligação ao tormento

Bendito descanso onde já não existe mais nada
Onde não é imperioso que a opinião
Seja certa ou errada
Só o beijo da melodia que me é mais chegada
Me acalenta a dor do final do dia
E de esperança no começo da madrugada.






Acidez



A acidez fissurou as entranhas das criaturas
Fragmentando-as em pedaços sem morada
Corroeu as pontes que desabaram em rios parados
Por entre golfinhos saltitantes
Anunciando a mudança a descrença
A inundação gélida imensa

A acidez desfez as serranias
Incendiou as árvores
Sorveu a vida dos répteis
Que se esconderam cada vez mais fundo
Nas cavernas da escuridão no abismo dos mares
Procura os ovos da dimensão temporal
Que eclodem em ninhos demolidores de lagares

A acidez decompõe pragmática
Os ossos dos mamíferos
Que fogem tresloucados
Da intempérie corrosiva

A acidez deforma as bocas e os olhos dos magnatas
Dissolve-lhes as notas os mealheiros
Os lixos os excrementos próprios e alheios

A acidez não tem preferência
Esburaca a pedra
Faz divertida um rendilhado nas montanhas
Deixa a descoberto as vísceras dos humildes

A acidez percorre inominada
Todos os caminhos mesmo parada
É traiçoeira oportunista
Tem para destruição uma secreta lista

A acidez é solitária e manhosa
Morde a presa na calada
E deixa-me a mim criatura sem rumo
Aflita desfeita desorientada

A morte e a vida




A morte perguntou à vida
Se pulava de alegria
Mas a vida respondeu                                           
Que o entusiasmo morreu
E que andava aborrecida

A morte perguntou à vida
Se a luz a perturbava
Se a criação não tolerava
Por que céus desaparecera
Por onde de facto andava

A morte perguntou à vida
Se a preguiça a manipulava
Se a raça humana se desgarrava
Se aos parasitas se igualava

A morte perguntou à vida
Se estava cansada do sol
Se a sua energia se esgotou
Em corpo cansado e  mole

A morte perguntou à vida
Se a sua inspiração morreu
Se ficou inerte muda e parada
No feito que lhe antecedeu
Retrógrada prisioneira das sombras
Ombros caídos membros desfalecidos
Espalhada na longa estrada esfalfada

A vida soltou uma gargalhada
Provável estaria pedrada
Impregnada de cinismo
Perguntou à morte então
O que queres de mim vilão?
Julgas que não sei
Que és o meu espelho o meu rei
És a cabeça da minha cauda
És o abraço da minha mágoa
És as costas do meu corpo
E eu sem ti não sou nada!

Prece



Mãos unidas pedindo socorro
Em mar obscuro onde os risos das criaturas
Se esqueceram há muito de silenciar em prece
Olhos que se cerram captando no escuro
A energia que parece fugidia
Mas que o espírito enaltece 

Respiração cansada de lutas
De jornadas em que sem roupas
Sem abrigo o humano arrefece
Torna-se saltitão incoerente
Protão indecente que não se dá conta
Que o eterno é semelhante ao que acontece

O impermanente anseia libidinosamente
Pelo que permanece
E é na promiscuidade
Que lava desordenada do vulcão
Rejubila em incandescência
Chega ao oceano serpenteando
Deixando seiva de vida em cada lugar
E é então que o verde floresce
Quando o fogo desfalece
Onde na aparência nada é o que parece
Pois o que morre revive
E o que vive falece sobre o chão
E de novo advém consciência
Em forma de oração

Vontade subtil


É tanta a vontade de me embrenhar no silêncio
Que o discurso sai a custo desprovido de sentido
Do concreto do metalizado sem enredo

Anseio então por uma vela acesa qual nutrimento
E a calmaria que se instala no coração
Incenso carinhoso sobre a mesa
De quem percorre um pântano salpicado
De criaturas sem consciência 

É tamanha a vontade de silêncio
Pois é nele que me estendo me distendo respiro
Que me expando enclausuro me comprimo
Apenas o som subtil em danças aromáticas
Tateando os dedos em vibrações de extasiar
Sobre as  teclas de um piano adivinhando a mão
Onde o dia e a noite se fundem num brinde ao celebrar