Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A ilusão das fronteiras


No vale protegido pelos montes imponentes carregadores de códigos
Onde os deuses famintos vêm poisar em juízo
Sobressai nas sombras uma abertura invisível
Para os que participam na competição das velocidades
Abrindo veredas na vontade de fuga para o paraíso

Preso ao chão húmido onde o musgo escreve o verbo da vida
Espraia-se a claridade do lar desagregado
Onde os falantes se transformaram em pó
E as palavras acutilantes perderam-se no trilhar dos caminhos
No crescer das trepadeiras e na destruição dos ninhos

Lenha miúda espraia-se em direção ao céu
E perfura com os picos os vestígios de brancura
De outras ilusões outros assassinatos e outros perdões
Que se enlearam sangrando nas silvas brotando da terra ilesa
Que permanece imponente em própria defesa

As formas geométricas deformam-se com a gravidade
Que faz assomar à janela decadente do casario
O estilhaçar dos muros outrora serpenteados de flores pedras e cal
Murmuram os segredos das fronteiras derrubadas
Sem eleitos sem defeitos sem pedestal

As fissuras alinham-se então pelos sulcos aparentes
Desenhados em telas de argamassa em contaminação
Enquanto o silvedo perfura os rastos de destruição
Imbuído da vontade de domínio em desmedida invasão de território
Aguardando outros tempos preparados então
Para a eterna fertilização 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O necessário e o inútil



O necessário encarou o inútil
Tentando convencê-lo da sua inutilidade
Mas o inútil defendeu acenando o seu livre-arbítrio
E que fazia o que muito bem lhe apetecia
Pois se queria espezinhar espezinhava
Se queria maltratar maltratava
Se queria matar matava

O necessário manteve-se quieto aguardando
A justiça cósmica mesmo no vibrar incerto
E apercebendo-se da dança macabra
Dos simulacros de espiritualidade dos passatempos
Do pedestal aprumado dos sistemas redutores
Concluiu que a seu tempo o tempo viria
E de outras luzes o mundo se inundaria

O necessário adquiriu um corpo
Imiscuindo-se na matéria onde a simetria dos elementos
Ignorava o rodopiar da cruz
Deixando uma cauda faiscante no círculo
Em rotação vertiginosa ainda longe do reino humano
Como se cada criatura tivesse a experiência
De uma injeção intravenosa
Ignorantes da espiral da abrangência
Onde a fauna e a flora se entrecruzam
Na abertura do trespassar dos elementos
Habitáculo em lugar nenhum
Onde se dá a efervescência dos sacramentos


Substância espiritual



A matéria projeta-se nas vias rápidas da decomposição
E os canais transmissores de fumo
Preveem as chaminés da obscuridade
Enquanto centelhas angélicas
Do mundo do inalcançável
Dançam na vibração da eternidade
Fazedora de substância em agregação

A vertigem processa-se na tontura da queda
Enquanto cessa o voo dentro do enigma existencial
Acolchoado de oráculos adivinhadores do além
Confundindo o esbracejar do enfermo
Onde os sentidos não abrangem
As alucinações gargarejam
E onde as dobras se confrangem

Permanece uma força que ascende
Perante a cegueira do mal
E a patologia da divisão inventa subterfúgios
Em forma de oração
Rasgando a união dos vasos contentores de vida
Onde as artérias de ligação
Se transformam em galerias
Sem ponto de referência onde o mesmo
Perfaz o dentro e o fora
Numa visão de ascensão libertadora

O grito da Terra



O grito da terra provoca línguas de fogo
Em arquiteturas que lambem as feridas de cortes profundos
Que as criaturas do submundo dilaceram
Por entre alucinações intempestivas
Onde o território das gralhas espampanantes
Criam repetições de ecos em camuflagem de beleza
Onde não há branco não há negro nem certeza

Mas as grasnas inúteis sustêm a devassidão dos mundos
Colam-se às rochas trituram as areias
E provocam micoses nos seres desprevenidos
O bramido da Terra pede socorro
Provoca a fúria dos elementos
Enquanto as lavas que brotam
Se transformam em misteriosos e incontroláveis ventos

As gralhas farejam a inutilidade da postura dos seus ovos
Entre o podre e o dorido sugam os líquidos em suspensão
Criando a festa narcótica da diversão

A Terra nivela abraça acarinha
Mas as gralhas enlouquecidas
Dançam medonhas parasitas
Na obscuridade das fossas
Ignorando as tolas que há muito estão mortas


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Vínculos



Os casamentos proliferam à superfície
Onde vermes enfermos pedintes e mostrengos sem nome
Se entrecruzam na ânsia imberbe de sustentabilidade perpétua
Emitem a vibração dançante da inter-relação
Esvoaçando no líquido translúcido
De uma perfeita necessidade cortante
A teia adquire formas múltiplas
De instrumentos piscatórios de dependência
Mesmo quando o bafo apertado e desesperado
É feito em arquiteturas de ausência

Constrói-se no ambiente corrosivo a rede neuronal
E as línguas e as gargantas exalam o hálito
Aparentemente doce da comunicação
Chaves e fechaduras cadeados e cabides
Servem os prolongamentos das máscaras com escaras
Perdidas na dualidade das cinematografias e das amarras

Campos elétricos provocam choques de atração
Cabos proféticos ampliam a ligação
E os lençóis freáticos criam labirintos de permeabilidade
Onde o microcosmos aguarda a saída da caverna
Bola de fogo cósmica projetando-se sob o sol
Que orienta em permanente ficção os humanos como farol


sábado, 21 de novembro de 2015

Cagarras




As cagarras vieram para ficar
Barafustam ameaçam
Escolhem a entoação da música do aço
Que fere os tímpanos e a mente
São cagarras de afiadas garras
Que escondem o medo e a cobardia dos traidores
Inventando danças de folclore dos pântanos
Buscam o prazer na desolação de outros pássaros
Espezinham saltitando no costado de outras perspetivas
Criando em seu redor a adoração de si próprias
E a lâmina vai direta à garganta de quem ousa enfrentá-las

Pobres caga garras!
Com o tempo que tudo espreme
Sentirão o cheiro nauseabundo dos seus ventres
E a lâmina que atiram
Virar-se-á contra as suas próprias cabeças de tremoço
Que incham porque só têm aguadilha dentro
Nem mais nenhum elemento!



Simplicidade



A criatura humana deixa-se encantar pelo colorido da cena
Pelas personagens amorosas da sedução aparentemente plena
E distancia-se do estado de plenitude do Eu
Como união de ambiguidades
Pois somos o todo que arrasta consigo a união dos opostos
Numa erupção de vivências e incandescências
Multiplicidades de sentires e irreverências

Devíamos sentir-nos simples como a água do mar
Lamber as lágrimas salgadas num misto de dor e prazer
De quem sabe que a vida é ilusão aparência de Ser
Porque vibra uma ligação inquebrável entre os humanos
Que acontece em forma de grito de união
Porque a separação só a sente quem não dialoga com o espelho
Quem não se sente genuíno e transparente
Quem não entra em êxtase perante um pôr-do-sol esplendidamente vermelho!

Oposição aparente



Quem disse que o escuro e o frio eram sinais de morte
Sem ida sem vinda sem passaporte
Ferro quente estilado ausente
Que trespassa o tempo bafejado pelo incoerente

Contentor de mensagem secreta
Gravada na armadilha da teia neuronal
Rende-se aos enleios da aranha paciente ardilosa
E aguarda a mão que desmonta em rede de pesca artesanal

No encruzamento das linhas permanece
A cruz simbólica do humano
As direções da Terra no Norte Polar
Do sul solar do surgimento da luz em brio
No sono gélido profundo apaziguando o cio

O aracnídeo tece em redor da janela aberta para a claridade
A névoa de cabelos brancos
Confundindo os ratos aguardando as lagartixas
Que perderam as caudas
Na fuga impensada da extinção iminente

O frio e o escuro selam o segredo da vida
E aguardam que a semente sobrevivente
Rompa a casca e se deixe arrastar na cósmica corrente
Onde a metamorfose desnuda os corpos
Na transmigração de energias
E estilhaça os campos quânticos da impermanência
Confundindo o humano que tem ganância
Pelo sagrado e profano perto do abismo da irreverência

domingo, 8 de novembro de 2015

Extinção



A janela abre-se sobre o abismo triturador de energias
E as asas do mostrengo atravessam o espaço negro do nada
Que se projeta numa suspensa estrada
Na escuridão do tempo formador de estátuas graníticas
Intrespassáveis inalcançáveis megalíticas

Uma virose em forma de cruz pedestre
Provoca a floração das cores
Nas fissuras entreabertas ao sol
Encadeado pelo rastilho cósmico que desenha
A poeira do transitório da lava multimodelar
Incendiando multiformes
Indiferente ao pequeno e enorme
Ao inerte e ao andante inconstante

Os homens fecharam-se entre paredes em quadrado
Porque as coisas só assim pensavam que se encaixavam
E esqueceram o círculo a parábola
O ninho de proveniência temporal
Mantiveram as mentes no capcioso real
E não deslizando entre cidades alcandoradas
Permaneceram petrificados
Numa mistura de pó e vento
Sem dinâmica sem vida sem alento
E a visão do coração fechou-se
A porta da vastidão trancou-se
E o homem pintou o quadro a óleo da sua extinção
Nunca alcançando a derradeira dimensão 

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Vigilante




Bonecas de porcelana empreendem o rodopio
Da frieza disfarçada de sorriso cortante
De quem não sente a dimensão do outro
Pois o olhar envidraçado não reage
Permanece vidrado num ponto indefinido
Algures no ego matreiro e desalinhado
De quem nem se apercebe que transporta um fardo

O vigilante observa as tentativas de colagens das mãos
Que rígidas se hasteiam na ponta dos braços que não abraçam
Não são dobráveis e desconhecem os encontros
Dos lábios gélidos das bonecas saem grunhidos lamentosos
De quem tem de permanecer num estado corroído
Pelo tempo pela intempérie dos sonhos das ambições
E não perde a esperança malévola de ser
Adorado cegamente por abstratas multidões

O vigilante cobre o rosto com ambas as mãos
Absorvendo nas faces o calor
Provindo do elo de ligação ao sagrado em união
Descansa o olhar no serrar das pálpebras
E prevê o estilhaçar da porcelana
Que não serve para acarinhar envolver consagrar
Apenas uma beleza sem alma

O vigilante derrama lágrimas de tristeza
Perante a falta de delicadeza
Mas um sussurro segreda-lhe ao ouvido
O som melódico do não interferir
Recolheu-se o vigilante outrora combativo e guerreiro
O gelo avançava e era urgente
Uma viagem diferente seguir

domingo, 25 de outubro de 2015

Chuva



A chuva perguntou ao rio
Onde vais com tanta pressa?
Perdes-te na correria das águas
Diluis-te nas enseadas
Nas baías no alto mar profundo das mágoas

A chuva interpelou a montanha
Porque era fria inóspita austera
Que segredos guardava
Onde as grutas a corroíam
Onde as árvores centenárias a terra comiam

A chuva inquiriu os homens
Sobre o espírito de que eram feitos
Mas não encontrou resposta nem entre os esquecidos
Nem mesmo entre os eleitos

A chuva enegreceu
O céu ficou escuro como breu
E calculou que os seres inteligentes
Se deixavam arrastar pelas falsas correntes

Desistiu então de irrigar os campos
O homem desagregou-se nos flancos
Consumiu-se a ele próprio na divisão dos corpos
No estilhaçar das almas afundou-se no poço
Onde os algozes criaram raízes
Desmembrou-se onde o ciúme e ganância
Arquitetam a aniquilação da espécie ainda na infância

A chuva derramou as lágrimas sobre o deserto
Apaziguou o fogo revoltado
Moldou a lama em forma de lâmina
E esperou que a semente original do amor
Voltasse a germinar no planalto da floração
No pacífico templo da oração
Mesmo enfeitada de cansaço no dormente coração

Envolve-me chuva quero partir contigo
Porque o reino humano falha  e vegeto num jogo contaminado
Em que tudo se baralha e há muito tempo que tomei consciência
Que não me dá qualquer abrigo!



Rastos de rebeldia




A rebeldia aguçou o espírito os sentidos e alargou perspetivas
Enquanto semeava laivos de incongruências fugidias
Mas incapaz de se manter em promissor convento
Deu passos em direção à folia e ao ritual de encantamento

Sobrevive o vivente transformante no rio incerto da aventura
Onde os trejeitos das personagens agitam a bandeira do livre-arbítrio
Qual bacante em transe divinizado desmembrando as normas
Criando palcos de pura libertação abraçando o fogo ceifando formas

Sacerdotisa que provoca os cegos ignorantes os pedintes
Os acumuladores de riqueza no ribombar dos deuses
No quebrar das amarras sem jugos sem julgamentos
Apenas a afirmação da ânsia da vida sem subterfúgios de requintes

Um erguer de cálice à euforia ciclónica
Da turbulência magistral da força dos elementos
Um brinde à saúde plena esquecendo  posturas
Amarguras patológicas e composturas

O sorriso e o riso festejam o final da guerrilha
Porque o grito jorra agitando o estandarte das tréguas da paz
Como vencedor medalhado pela natureza verdejante
Enquanto a podridão miserável que acorrenta o espírito
Numa cova escura jaz 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

As moscas



Zumbem as moscas em redor do bolo
É de tal forma o zumbido
Que as malditas moscas ferem o ouvido

As ventosas projetam-se nas paredes
Nas portas nos corredores nas salas
Nos vidros das janelas
Deixando um rasto invisível de micróbios

Adoradores da raiva projetam-se
Na dimensão invisível da fome
Devoradora canibal
Sem doce sem amargo sem sal

As moscas esvoaçam de asas bordadas
De transparência anémica
Sugadoras de nutrientes energéticos
Mecanismos arquitetados nos tempos caóticos
Da podridão humana
No egoísmo da mente sacana

Moscas atraídas para os odores fantasiosos
Dos tronos erguidos na langonha dos preguiçosos
Dos insetos mostradores de ócio como crença
Denunciadores dos desleixados
Bifurcados nas embocaduras da maldade intensa

Estou cansada de ouvir e contemplar
O ritual venenoso das moscas
Cascas velhas olheiras amarelas
E visões camufladas atarantadas e foscas   

Semente




Há uma variante de semente que não germina na terra
Tem origem etérea onde seres translúcidos flutuam
E onde a música é motor para o expandir do incenso
Do pai do filho desligados e perdidos no sucesso

Há uma cambiante de semente que traz com ela
A potência sagrada dos laços de liberdade perpétua
Onde hinos se fazem rituais de apologia à vida
Ao pulsar endeusado da guerra destemida

Há uma inconstante semente que brota da união
Entre o caos e o cosmos
Da aliança entre os elementos que se trocam
Se entrelaçam formando bordados de recortes
Retalhos desobstruídos de atalhos onde se inova
Fusão criada no deslumbramento de energias inacabadas
Perpétuas ambulantes ávidas de criar labirintos e puzzles
Onde a paciência e o engenho é posto à prova

Há uma variante de semente que oscila entre
O florescer do pomar orgânico e a podridão
Que contamina as células por dentro
E que afasta os homens da felicidade lúcida
Onde o cinismo os acorrenta ao tormento



domingo, 27 de setembro de 2015

Líbido




A líbido contemplou embevecida um levantar de saias
Deliciou-se com o sapateado esfuziante da fêmea
Em época de acasalamento
E foi direta ao centro da consagração do ventre
Fruto pensado palavra expelida voz infinita
Grito existencial vagueando no cosmo sem guarida

A líbido invade em traição perfeita
O sangue da criatura desprevenida
Que eufórica pensa estar a entrar no ritual de aplauso à vida
O sentir da carícia eriçando a pele insaciável
Que extravasa desvairados enredos
Os órgãos genitais condutores de eternidade
Transforma-se na chave que abre o cofre dos segredos

O véu branco incide sobre os amorosos
Que esbracejam esperneiam
Enredados pela delicadeza da subtileza
Sobe-se aos píncaros do vulcão em erupção
Queima asfixia esquarteja destroça
Mas qual ser saltitante na invisibilidade
Delicia-se com a profanação
E o sexo escorre quente incontido
Pelo volutear endoidecido do furacão

Malga




Sagrado recheio em árido contentor
Boca ávida de alimento mãos em louvor
Barcaça simbólica que na intempérie nos sustenta
Divino elemento vivo que se mistura em austero recipiente
Fruta legume cereal e água tão variado e instável ingrediente

A malga é leito energia que acalenta
Bebível num trago e mais não faz falta
Engolir o cosmos combustível para o voo
Trava o desacato a embarcação a fome
É alegria homenagem ao dia à dança ao nutrimento
Que abraça o corpo por dentro
Um hino à paz ao nascimento
Calor carícia a quem descansa e dorme

Um repasto abençoado mesmo na simples pobreza
Malga branca malga franca
Malga pura apartada da insanidade da loucura
Hipérbole da dependência da boa vontade da inocência

Quem dera que cada malga encontrasse
A boca faminta aberta inquieta
Sem gastrites azedas sem falsas realezas
Sem tiaras de princesas
Apenas uma corrente de ligação em rede labiríntica
Em que a partilha é Rainha
Malga bilhete para a montanha  abundância de amor
Portal aberto de comunicação para a cintilação
Das vozes do apaziguamento do encantamento
Do ritual da folha de Outono que cai e rodopia
Com a melodia epifania do terno vento

A saga continua



A dança do ventre na confusão se distende
Línguas afiadas garras em desgaste
Arquitetam falsetes na orquestra de enfeites e lérias
Embutida nas paredes das artérias

Continua a saga das papoilas tontas no ar
À espera do sopro que as leve para um improvisado altar
Loucas as baratas perdem-se na poluição dos esgotos
Gargarejam em espaços angustiosos esvoaçantes
E os braços das sementes em rotação sem terem onde aterrar

O baile de máscaras retrocede ao primitivo
Do empedernido evacuando estratégias furadas
Rodas quadradas mal compensadas porque no ângulo reto
Permanece um obscuro manto incorreto
A saga continua a expressar-se no caótico
No robótico antagónico
E o bom senso cai por sistema em saco roto

A pulga sobrevivente contemplando
A  saga do vermelho papoula
Projeta o salto para outros jardins
A pobre da pulga não queria
Saber de bailes nem esgotos
Nem esqueletos robóticos
Ia construir um ninho forte e preciso
Longe das cheias torrenciais
E onde o grito por gentileza
Se transformasse em riso

O lado de cá



A obscuridade que fizera um acordo com a negridão abissal
Rebelou-se contra o escuro e num golpe cénico fê-la desaparecer
Pois que perante a continuação do nada era melhor ser e aparecer

Mas a obscuridade quis manter o trono
Embora no fundo de si mesma fosse um mono
E o ser e aparecer ficam faiscantes meros debutantes
Ingénuos palhaços bobos ignorantes limitados atados
Porque o atilho das trevas espreitava 
E controlava a cada momento
Inventando a promiscuidade dos elementos
Dos compósitos fedorentos

É que o lado de cá oprime controla reprime
Vitimiza decepa os corações
Faz as criaturas em barcas da necessidade e amargura
Permanecerem à deriva entre orgasmos de fogo-de-artifício
Ansiando todos o inalcançável paraíso

O lado de cá chicoteia abrindo fissuras
Na carne humana retalhando os animais
O lado de cá absorve as impurezas de cérebros conspurcados
Na patologia dos lagartos comedores de ovos

No lado de cá as vozes formam o coro do socorro
O grito de revolta pela intermitência das luzes austeras
Da desagregação da matéria
Desmembrando apunhalando fundo nos corpos
Fazedores de orlas de coral cadavérico poluído
Onde dançam as ninfas desobstruindo metais pesados
Que laminam a postura ovípara dos répteis
Que ambicionam o pódio e o aplauso dos milionários
Exploradores invasivos de espaços alheios
Manipuladores sem freios
Manhosos esqueléticos e feios
O lado de cá é o faz de conta onde a nudez é escondida
Porque o elo de ligação a corda que nos sustém
Que nos anima a todos permanece perdida