Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Escravidão




O sangue percorre os rios do subsolo
E aflora jorrando dardos de morte
Fogem as mulheres e as crianças do inferno de podridão
Em que as entranhas da Terra devolvem às bocas
O que as criaturas derramam no chão

As feras enlouqueceram e as crias assustadas
Lançam-se em correria para um fictício auxílio
Ávidas de outros solos outro sol outros braços
Que não desfaçam os laços
Mas ignoram que o Mundo inteiro é ratoeira
Como se fosse cama caixão uma rasgada esteira
Não se descansa não se dorme
Em vigília de fome

A espécie humana alimenta-se do absurdo da insanidade
Bem lá no fundo do hipotálamo disfarçada de lesma
Reside uma pequena semente de imbecilidade
E o fenómeno da decadência moral prevalece
A loucura é a mesma

Na ânsia de golpes profundos na carne
Repete-se a vibração das trevas
Só há uma opção uma escolha paradoxal
Escolhe-se a forma de morrer
Porque é só nesta eleição que se premeia
A escapatória do averno
Entre a catana que esquarteja e o abismo do mar
Premeia-se o afogamento pois surge
Como gesto de socorro último recurso
Como única hipótese mesmo débil de sobreviver 

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