Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

domingo, 12 de abril de 2015

No entroncamento das searas



É no entroncamento das searas que os meus olhos cegos
Vêem as raízes das árvores mães debatendo-se pela criação
Ávidas de água pulsante transformadora de sementes
É na encruzilhada das searas que o alimento se faz carne
A carne se faz gemido o gemido se eleva ao grito
E o grito se codifica em palavra
Mas a palavra do homem tem lâminas de corte afiadas
E o entroncamento é balança decisiva engano perfeito
Alimento contaminado
Falso arado

Quem dera que em plena seara
As papoulas esvoaçassem ao ritmo do vento
Os lagartos sobreviventes descansassem das correrias ao sol
Quem dera que as searas se desfizessem em pão de paz
Nutriente de sabedoria ativador de reminiscências
Para que nos pudéssemos reconhecer como semelhantes
E não nos perfurássemos de raivas encenadas nos cornos das bestas

Quem dera que as searas que desapareceram no meu país
Voltassem de novo a desabrochar nos campos
Nas imensas planícies onde malmequeres brancos sorriam à lua
É que as searas perderam-se no entroncamento
E seguiram outro rumo atraídas pela vaidade
Pelo poder pelo dinheiro
E agora chegou o tempo das bocas vazias
De poucas alegrias de suicídios determinados
Pelas cabeças depressivas dos humanos
Que deixaram de saber o que é uma seara
E chafurdam em perfeita amnésia em falsas melodias!

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