Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Fissuras do tempo



A escrita que me tatua o corpo é gravada
Por entre as fissuras que se fraturam no abismo do tempo
E desta forma transformo-me no molde inacabado
Por entre golpes profundos de espada
Que cavam veredas na fronte transpirada pelo cansaço
Erupções calcificadas brotam das entranhas
Como se desabrochasse do casulo que sou
Uma entidade desconhecida e peculiarmente estranha

Que batalhas os meus olhos constataram
Que vestígios de golpes sem dó nem piedade me quebraram
Que respirar é este que sufoca
Que formigueiro na garganta anula o grito de socorro ansiado
De neura pelo existir martirizado

O vómito contido que se instala na garganta
Tem a mesma cor do escarro com que os homens se agridem
Enlouquecem preguiçosos deixando que a consciência se ausente
Para outra dimensão
Pois os olhos raiados de sangue a calamidade humana anunciam
E as tonturas do meu cérebro pressagiam
Como se a catástrofe penetrasse no meu efémero ser
Numa espiral de autodestruição
E deste feito renascesse uma eminente libertação

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