Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

terça-feira, 16 de junho de 2015

Caminhos turvos




Arrepia-me a cegueira com que nos embrulhamos
Como se sofrêssemos de miopia
E as manchas de sangue que a sociedade humana
Bordou em cortes profundos
Não passassem de papoulas vermelhas
Agitadas ao vento em campos abertos

Enlouquece-me a avidez com que nos atafulhamos
De tecnologia desnecessária
Como se os dentes mastigassem metais pesados
E com isso adviessem monstros mecânicos
Serrações galopantes de criaturas
Desmembradas pela bestialidade

Enfurece-me que os príncipes e as princesas
Os magnatas e os peraltas acumulem as riquezas
Que retiram o alimento às crianças
E dos adultos que sentem o desterro sem esperança

Para lá das cortinas escuras descortina-se
O peçonhento desequilíbrio que idolatra o abastado
E desrespeita o pobre porque o jogo da ambição
Tem mais força do que o da dignificação
E a vontade das criaturas humanas
Ainda permanece encerrada na gruta funda
Os moldes da crueza da ganância da avidez perpetuam-se
Quem sabe um meteorito sabedor anunciador do caos
Destrói o andamento desta engrenagem bizarra
Que corrói almas e desta destruição
Diferentes valores e outros moldes se farão

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