Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O grasnar da arara




A penugem soltou-se e o corpo cobre-se de penas
E deambulando a espécie vistosa
Procurando o poder e a adoração
Pula e canta convencida que encanta
Mas na penumbra dá bicadas
A quem a voz para ela levanta e não é manobrada
Pelo encanto e superficial admiração

Pavoneia-se a ave insólita esgravatando a denúncia
Artificiosa sugere coercivamente
Porque não aguenta o bico calado
Assinala o território e afaga melenas
Em constante alerta impõe e controla
Os que não lhe alisam as penas

A arara linda que é!
Tão linda por fora e dura e crua por dentro
Recruta soldados para a causa estética
Da cauda ambulante e dissemina
A sua vontade poluidora de flutuações magnéticas
Adora a sua crueldade olhar de vaidade
Afocinhando no mercado de troca e vendas
E os soldadinhos de chumbo enfileirados
Marcham ao som estridente do pássaro raro
No pântano nebulado onde tudo tem seu preço
E as negociatas se assinam mas sem endereço

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