Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Miscibilidade




Comprimem-se os elementos na dureza das placas tectónicas
Formando matizes de texturas e cores em fissuras lineares
Obedecendo à força da gravidade da esfera viva rodopiante
O tilintar energético que me atravessa qual luz de vela
Provoca o saltitar sobre tapetes policromáticos
De ribeiros de compressão temporal
Que apontam a falsa fronteira entre o mar e a terra

Ilhas de limos cobrem um chão movediço e instável
Substituindo o solo arável enquanto na areia quente
Lagartos captam o calor do sol agradecendo à divindade
Um espaço paradisíaco para respirar no presente

Os mirones profissionais e os amadores retalham as ambições
Os desgostos as psicoses as paranoias e as desilusões
E brindam com o branco espumoso das ondas
A peregrinação salvadora das almas

Faço um voo rasante sobre a falésia
Visito de olhar esbugalhado as grutas perfuradoras
De dínamos ninhos esconderijos de criaturas transparentes
Oriundas do microcosmos estelar sombrio
Onde se acomodam as sementes invisíveis
Hibernantes desidratadas e imóveis no frio

O farol sobranceiro agita os tentáculos de aviso
Porque os seres lambem as feridas onde as igrejas são erguidas
E o templo da ruptura cai nos meandros das catedrais naturais
Levantadas pelas marés pelo vento pelos temporais

Este surfar de ondas cai no remoinho fulgurante do paradoxo noturno
Cavalgo nele sem alternativa e misturo-me com os elementos
Em processo de amadurecer adormeço a consciência
E no silêncio do nada abandono o corpo e deixo-me morrer

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