Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O inconstante



O impermanente rebolou sobre si mesmo
Em roteiros cinematográficos
Criando subterfúgios de arquiteturas fictícias
Roubou por breves instantes
Uma corporeidade vizinha e dançou embevecido
Com a sua habilidade rítmica
Estancou o passo subiu às paredes
Fronteiras temporais entre a escuridão e o sol
Desenhou nelas rasgos de psicopatia
Dilacerou janelas arrombou portas
Acumulou os desperdícios da sua temporaneidade débil

Estilhaçou com gosto outros corpos inconstantes
Gargalhou sobre os odores nauseabundos que deixou
E fugiu atarantado e surpreendido com o seu desatino
Sem preocupações com o destino
Apenas pintou a argamassa
Evaporada nas colinas da incongruência
Escrevinhou as premissas da sua justiça cega
E que a si mesma se nega
E esfumou-se sem alcançar uma conclusão

Deixou as sombras da geografia humana
E percorreu num raio de luz o caminho
Para outros espaços outros gritos outras neuroses
Convenceu-se que existia num labirinto
Que se fazia e desfazia como o respirar
Da profundidade cósmica
Os saltos camaleónicos do instável
Eram sintoma de festividade
Uma mistura de prazer e crueldade
De sentir e tudo destruir
De cortar e coser de apunhalar e recrudescer
De semear e crescer
Fusão de vulcão orgástico e nascer


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