Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Brancura



A brancura com que me cubro
É o manto sentido do desencanto
Do confronto dos soluços contidos
Que ameaçam inundar esta alma calada
Deste lado da crueza sem defesa
Deste fogo que transforma em cinzas
O florescer viçoso sem delicadeza
Numa fração de tempo em que as borboletas
Rebentam vendavais em lagartas sequiosas
De voarem sobre as pétalas de veludo dançantes lírios
Ondulantes papoulas  malmequeres e rosas

Esta brancura é feita de batalhas
Onde os olhares da descrença incendeiam as cearas
Onde pés cansados procuram o alívio
Da linha imprecisa e irrequieta do rebentar das ondas
Onde as amizades sangram e são cada vez mais raras

Esta brancura com que me visto é presa
Ao laço estilhaço de um grito de dor humana
Que entra no labirinto da agonia
De outros olhares cansaços outros embaraços
Outros gritos outros aflitos passos
Em tonalidades de desgostos cegos
De uma força que se afunda rodeada de enguias
Afogada num emaranhado de rios e lagos

Esta brancura é a captação da energia
Do reino da temperança da virtude da justiça
Do equilíbrio da guarida
É voo da serpente corda vibratória
Que oscila na profundidade cósmica da vida




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