Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 19 de setembro de 2015

Serviço ambulatório



O pessimismo deambulava sozinho pelas ruas escuras da cidade
Captou cães vadios para o acerto da sua tese
E os pedintes marginais da sorte serviram-lhe de argumento
Para o seu mestrado acerca da obscuridade humana

No seu modo carrancudo detetou o choro convulsivo da criança faminta
O grito agoniado de dor da mulher vestida de fibromialgia
Entorpecida e desfigurada onde somente o pessimismo lhe comprova
Que ainda permanece viva e amargurada
O pessimismo nada fez
As premissas estavam corretas e o juízo final estava aprovado

Continuou entusiasmado a reunir provas para a sua questão
De que tudo é péssimo difícil incoerente
Entrou sorrateiramente nos bastidores da política
E encheu um saco cheio de corrupção manipulação fetiches
Vaidades destorcidas sensibilidades perdidas
Encolher de ombros indiferença
Apertos de mão em negócios de matança
E o seu mestrado reluzia pois interiormente sabia
Que só a sua verdade sendo conclusão final
Ficaria hirta apesar do vendaval

Mas a esperança que despertara pelo nascer do sol
Resolveu fazer-lhe frente e disse que se recusava
A pertencer àquela gente que destrói maltrata
Anunciou-lhe que sabia de um lugar algures no coração dos homens
Que ainda não estão contaminados pelo bezerro de ouro
Que é possível manter a semente pura
Que é viável a cura da loucura
E que a dureza da existência humana
Pode transformar-se em leveza
Num paraíso em que os pássaros cantam
E não são alvos de caçadores patéticos herméticos no seu ego

Pessimismo e esperança
Resolveram traçar um pacto
Que o mundo fedia era um facto
Por culpa do ser humano que destrói florestas e mato
Dormiram os dois no mesmo leito
Mesmo sabendo que não seriam o casal perfeito
Mas lançariam raízes duradoiras que atravessariam os continentes
Que levariam a saúde aos doentes
Água a quem tem sede um lar a quem dorme ao relento
Um abrigo para quem experiencia a tempestade e o vento!


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