Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

As moscas



Zumbem as moscas em redor do bolo
É de tal forma o zumbido
Que as malditas moscas ferem o ouvido

As ventosas projetam-se nas paredes
Nas portas nos corredores nas salas
Nos vidros das janelas
Deixando um rasto invisível de micróbios

Adoradores da raiva projetam-se
Na dimensão invisível da fome
Devoradora canibal
Sem doce sem amargo sem sal

As moscas esvoaçam de asas bordadas
De transparência anémica
Sugadoras de nutrientes energéticos
Mecanismos arquitetados nos tempos caóticos
Da podridão humana
No egoísmo da mente sacana

Moscas atraídas para os odores fantasiosos
Dos tronos erguidos na langonha dos preguiçosos
Dos insetos mostradores de ócio como crença
Denunciadores dos desleixados
Bifurcados nas embocaduras da maldade intensa

Estou cansada de ouvir e contemplar
O ritual venenoso das moscas
Cascas velhas olheiras amarelas
E visões camufladas atarantadas e foscas   

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