Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

domingo, 25 de outubro de 2015

Chuva



A chuva perguntou ao rio
Onde vais com tanta pressa?
Perdes-te na correria das águas
Diluis-te nas enseadas
Nas baías no alto mar profundo das mágoas

A chuva interpelou a montanha
Porque era fria inóspita austera
Que segredos guardava
Onde as grutas a corroíam
Onde as árvores centenárias a terra comiam

A chuva inquiriu os homens
Sobre o espírito de que eram feitos
Mas não encontrou resposta nem entre os esquecidos
Nem mesmo entre os eleitos

A chuva enegreceu
O céu ficou escuro como breu
E calculou que os seres inteligentes
Se deixavam arrastar pelas falsas correntes

Desistiu então de irrigar os campos
O homem desagregou-se nos flancos
Consumiu-se a ele próprio na divisão dos corpos
No estilhaçar das almas afundou-se no poço
Onde os algozes criaram raízes
Desmembrou-se onde o ciúme e ganância
Arquitetam a aniquilação da espécie ainda na infância

A chuva derramou as lágrimas sobre o deserto
Apaziguou o fogo revoltado
Moldou a lama em forma de lâmina
E esperou que a semente original do amor
Voltasse a germinar no planalto da floração
No pacífico templo da oração
Mesmo enfeitada de cansaço no dormente coração

Envolve-me chuva quero partir contigo
Porque o reino humano falha  e vegeto num jogo contaminado
Em que tudo se baralha e há muito tempo que tomei consciência
Que não me dá qualquer abrigo!



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