Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O necessário e o inútil



O necessário encarou o inútil
Tentando convencê-lo da sua inutilidade
Mas o inútil defendeu acenando o seu livre-arbítrio
E que fazia o que muito bem lhe apetecia
Pois se queria espezinhar espezinhava
Se queria maltratar maltratava
Se queria matar matava

O necessário manteve-se quieto aguardando
A justiça cósmica mesmo no vibrar incerto
E apercebendo-se da dança macabra
Dos simulacros de espiritualidade dos passatempos
Do pedestal aprumado dos sistemas redutores
Concluiu que a seu tempo o tempo viria
E de outras luzes o mundo se inundaria

O necessário adquiriu um corpo
Imiscuindo-se na matéria onde a simetria dos elementos
Ignorava o rodopiar da cruz
Deixando uma cauda faiscante no círculo
Em rotação vertiginosa ainda longe do reino humano
Como se cada criatura tivesse a experiência
De uma injeção intravenosa
Ignorantes da espiral da abrangência
Onde a fauna e a flora se entrecruzam
Na abertura do trespassar dos elementos
Habitáculo em lugar nenhum
Onde se dá a efervescência dos sacramentos


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