Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Para lá da pele





Atravesso a fronteira da minha pele
E oriento-me mesmo no abismo
Púrpura profundo das veias em pulsar
Rios de ondulações do ser que respira
Que faz um pacto colorido com as árvores

Permeabilizo-me envolvo-me entre átomos
Abarco o tronco onde a seiva contraria
A gravidade do corpo celeste anil  ebúrneo
E num ápice sou folha verde acenando ao vento
Sou o sopro que sustém a planta
O líquido nutriente de que se alimenta
O motor que vibra em sonoridade viva
Como tambores que ecoam na selva da abundância

Ultrapasso a película da minha cútis
Plano por entre alvéolos pulmonares
Que me anunciam a poluição das criaturas
Os vícios as insanidades as loucuras
E de um ato de contrariedade alcanço
Outro ribombar outro espaço
Onde não há crivos nem dentes
Nem cruzes nem espinhos nem garras
Nem malévolas sementes
Nem sangue nem feridas nem balas
Nem matanças nem favos de decadência
Nem ovos de podridão nem crença
Nem mutilações nem doença
Para lá da minha pele
Esvaio-me em partículas de nada
Não quero saber de orientações
Permaneço incólume  onde ficar
É provavelmente aí a minha essência
O meu genuíno lugar


És forte



Acompanho num transe coletivo em ritual sagrado
A vinda de energia cósmica que vibra na entidade
Que desce sobre o presente anunciando-me que sou forte
Capta-me a preocupação pelo ser amado
À deriva num mar revolto
Tentando a salvação a nado

Mas nada quero saber sobre o futuro
Vivo o dia-a-dia desbravando no duro
Porque a vida humana sempre foi paradoxo
Como se entre o permanecer e o morrer
Se erguesse um enorme fosso

Forte fraco corajoso cobarde doce amargo
Que importância tem?
Da teoria à prática corre um rio agitado
E nem todos temos coragem para atravessá-lo
A vontade esconde-se fica camuflada
Tudo depende dos órgãos de perceção que se detém

A luz e a escuridão o nascimento e o colapso
Abraçam-se com a mesma força de um acaso
Porque as variantes são infinitas
Não se consomem nas somente descritas

Não quero saber!
Não faço alarde
Mas se as variantes são múltiplas e caóticas
Tocarmo-nos é milagre
Construo a minha direção
Sem pretender riqueza ou perdão
Mas no silêncio de uma resposta por dar
Na mudez de uma questão por levantar
Uma lágrima desliza pela minha face
E não evito que a tristeza paire no ar


Ligação à Terra



Trago comigo o selo perdido de ligação à Terra
Transporto um peso desmesurado
Que se afunda perante a insanidade do mundo sensível
E é tamanha a batalha que travo
Para não ser deportada para o rio sem espelhos
Que os meus olhos de amargura adquirem laivos
De tatuagens de filamentos vermelhos

Transporto-me num salto quântico
Para um ponto impermanente no espaço exterior
Qual viagem vertiginosa e cálida
E abraço o branco e azul rodopiando sobre si mesmo
Como se o círculo imperfeito fosse a sustentação da vida

Acalento em mim a chave que abre o portal
Para o mantimento universal da existência
Onde brotam rebentos de verdes
Longe dos humanos fazedores
De coroas tronos castelos e ferrolhos


Manifestação do ser



O mundo de renovação expande-se
Em espirais estonteantes
De complementaridades ocultas
Como se a chave e a fechadura
Permanecessem um só elemento
E a ligação fosse o sacramento
O provimento do mais faminto

Os limites extinguem-se
No invadir de espaços
Que se entregam a cronos
Minando o fechado
Que deixa cair os muros gigantescos
De egos tresloucados de olhar fétido
Transmutando-se em estado dinâmico de aberto

O acontecer vibra em cordas comunicantes
Anunciando a bebida sagrada do amor que entrelaça
Vence a escuridão e desembaraça
Qual novelo que liga os entes
Onde outrora imperava o desligamento

Cintilações existenciais erguem cenários calorosos
Onde em miscelânea cósmica o mesmo se alegra
Em raios de gratidão fundindo-se com o outro

A hélice pulsante molda as criaturas
Que subsistem entre vontades magnéticas
Tempestades elétricas
Emergindo na contemporaneidade avassaladora
Impermanente do ciclo explosivo do desabrochar

Ninho e nutrimento




Permite energia cósmica
Que mesmo não decifrando os teus mistérios
Reconheça o esconderijo
Onde me possa refugiar das feras mutiladoras
Da liberdade e dignidade humanas
Que nunca esqueça o poder do abraço
A plenitude da partilha e o júbilo do poderoso envolvimento
Da respiração sentida da troca vibrante
Da quentura dada e recebida

Permite energia cósmica
Que mesmo não decifrando os teus mistérios
Não falte o alimento pois a matança da fome é sagrada
Mesmo que haja consciência
Que para parte incerta estamos de abalada
Permite-me a construção do ninho
No centro deste terror humano
E que a criatura divina surja
No generoso acolhimento ao peregrino

Melodia da Paz




Que eu não renuncie a ouvir
Sempre esta melodia da paz
Mesmo que os montes se abatam
As árvores desfaleçam os rios sequem
As trovoadas incendeiem os abrigos
Os governantes se transformem
Em criaturas do mal amordaçando os desprotegidos

Que eu não renuncie a ouvir
Sempre esta melodia da paz
Mesmo que epidemias provoquem o extermínio
Os pais não tenham comida para os filhos
As escolas se tornem habitáculos descontrolados
De iras incontidas em jovens à deriva sem lei nem ética

Que eu não renuncie a ouvir
Sempre esta melodia da Paz
Mesmo que o meu corpo seja um limite a superar
A minha alma uma energia a modificar aperfeiçoar
Mesmo que o meu coração sinta injustiças que se aglomeram

Quem sabe se esta paz em cópula sagrada
Com o amor possa anular todos os desencantos
Todos os turbulentos momentos com valores minados
E descubra e neutralize a raiz da podridão
E que floresçam neste chão que piso
Cores sorridentes de cintilação


Cegueira



A cegueira acontece como mecanismo
De dimensões limitadas em que a criatura
Se foca apenas no alvo conciso
Que lhe permite a sobrevivência

O individuo recolhe dentro de si
Quaisquer elementos que possam
 Engrandecer o ego que já por si
Sofre de deficiência sensorial

Nestas condições temos na sociedade
 Milhões de seres cujo estado de cegueira
 Lhes causa inaptidão para a ação

Cria-se assim um ser automatizado
Dependente de cliques
De telemóveis de última gama
Como criatura unicamente fascinada
Com tal brinquedo mas que logo manda fora

 Enquanto clica e não clica
A mente estanca naquele programa
E não descobre outro que seja
Mais gratificante para o ser
Supostamente inteligente que é

Há de facto uma cegueira
 Mais patológica do que qualquer estado
Porque não apreendendo o que permanece oculto
É conduzido a um mundo de impossibilidade de linguagem
A um tipo de mutismo e dilui-se a criatividade
Anulando-se a expressividade humana

Que é o Homem sem arte?
Talvez criatura rastejante
Alimentando-se sem capacidade de questionar
Esfaimada de outras criaturas sem se autocriticar

Lixeira mental



Arquitetamos montes de sucata
Desperdícios mentais com que nos distraímos
Como chaminés mal cheirosas
Que espalham um odor nauseabundo
Para encobrir o inultrapassável
Estendemos então uma peçonhenta passarela
Por onde nos passeamos cabisbaixos
A pensar na doença

Mas que projetos?
Mas que realizações?
Mas que idolatrações?
Não teremos um receio do misterioso do incontrolável?

Voltamo-nos então para a profundidade do poço
Onde acumulamos lixo materiais excedentários
Com que nos saciamos
Porque o edifício de ideias enxovalhadas
Germinam em oceano maléfico
Enquanto dançamos nas nuvens
E somos consumidores de vaidades

Para não pensarmos no cortante envelhecimento
Inventamos guerras
Crimes e combates
Para fingirmos que não tememos a morte
Escondemo-nos na loucura obsessiva
Dando importância a ninharias fantasias violência
Não temos que admitir que viver é por si
Um absurdo vestido de impermanência

Liberdade de pensamento



Há ainda pessoas que não atingiram
Uma capacidade de autonomia de pensamento
Permanecem programados da mesma forma
Que os pais e os avós estavam
Recusaram-se a dar o salto em glória
E vivem limitados pelas muralhas
Dos seus preconceitos onde sentem uma segurança ilusória

Excluem todos os que são para eles diferentes
Estando prisioneiros das normas
Dos costumes das regras ancestrais
E tudo quanto seja alargar o espírito criar laços
Ter a perceção que o ser humano
É um ser em transmutação faz confusão
E que não faz sentido amarrarem-nos as mãos

 O conhecimento a criatividade não encaixa em cérebros
Que se agarram a algum tipo de poder mesquinho
Cabe àqueles que têm um espírito mais alargado
 Orientar os que se fecharam
Na caixa sombria dos preconceitos
Achando que só eles sabem
O que é bom e o que é mau
 Cada um de nós à sua maneira vai batalhando
 Para que este mundo humano seja mais transparente
 E a delicadeza da verdade contribua
 Para ultrapassarmos esta fase
De adolescência intelectual e tecnológica
E como criaturas de amor e dádiva possamos crescer
 E fazer frente à inanição e à clausura do espírito  do ser