Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quinta-feira, 19 de março de 2015

Passagem




Proliferam as teorias as experiências
Os ensaios em correria tresloucada
Combatendo os invasores
As partículas de expansão distendem um espaço
Encontrando outros camuflados inteligências arados
Outros motores outros tesouros

A alegria existencial espreita
As depressões as multidões
A avidez de perfeição de sedução
As fragilidades mentais as atrocidades culturais
Onde os aquedutos de poluição se distendem
Por entre as patranhas dos humanos
Adoradores de putrefação
Genocídio e  contaminação
Esquecidos da sua origem
Onde a dinâmica da semente eterna
Nada lhes diz perdeu significado
Deixou de ser anjo alado

Cobrem-se os rostos de negro
Condenam-se os inocentes queima-se o mapa
De retorno ao ninho
Corta-se o cordão de vínculo ao universal
E nesta época de argamassa metalizada
Defende enlouquecida a estirpe obtusa
Que não há bem nem mal matando-se em tempo real
Deixando caminho livre para a crucificação
Ignorantes de que qualquer sociedade humana é passageira
Se orientada por abutres prisioneira da anulação




Teia de enganos




Serpentinas salteiam pelo espaço
Que é circo de beldades de oradores encalhados
De vendedores de quimeras em bordados
Traçados no carril do comboio da fala
Apressada ansiosa de expressar
Transformando o discurso sumptuoso
Em mentira organizada
O que julga fazer parte do seu lar

O impositivo arquiteta firme raciocínio
Fazendo da verdade puro alarde
E fortalece a mente na necessidade de junção
Não se dá conta que entra no reino da confusão
E então subtis ouvidos perspicazes mentiras deliberadas
Entram no carrocel sonoro das dicções
Do acenar da vigorosa eloquência dada a opiniões

E mostra-se perentória a vaidade glótica
Entre dentes argumentos doentes
Quebra-se a fita destrói-se a mensagem
Porque o homem não está preparado
Para o silêncio sagrado da viagem

Seres metamórficos



Os seres da metamorfose repousam
Na inconstância dos elementos
Que em imane têm premência de um toque
Comunicam em rodopio mecânico
Por entre o vazio da magia
Do movimento incessante
E forças gigantescas empreendem a ligação
Enquanto a geringonça roda e encaixa
Corta e invade poços de congregação

Os seres metamórficos gritam
No entrelaçamento tentacular qual aragem
Vibrando incansáveis pelos aquedutos
Que sustentam códigos de linguagem

A impermanência transforma-se no emissário
Expelindo sonoridades de múltiplas formas
Como se o pulsar moldasse as estrelas
E a troca de cintilação originasse a dança das normas

Sem alento






Dilui-se a força da vontade
No pântano tentacular dos desperdícios
Abandona a sementeira
Porque os tempos são áridos torcidos
Cada um rompendo à sua maneira
Teimosos enxovalhados e retorcidos


Refugiando-se no nada sentindo-se apartada
A vontade desagregou-se sem alento
Não se afirma não explode não se anima
Não comunica não solidifica sem sustento

A vontade partiu para o submundo
Fixou-se nos interstícios da irrealidade
Sem mensagens sem emissor sem recetor
Sem canais intercomunicantes
Sem ambição sem ganância sem poder
Sem ânsia de controlo sem afirmação ter

A vontade sem vaidade 
Refugiou-se na planície do não ser
Deixou o caminho dos homens
Livre para se aniquilarem uns aos outros
Como malandros tolos e moucos
Deixando ao seu critério a vida a seguir
Neste marasmo de loucos

A vontade implodiu e absorveu
Os tentáculos de si mesma e em si jaz
Deixou aos homens o subterfúgio
De desligarem a luz do bom senso
E a ambição de paz