Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Bifurcações das línguas



Permanecem as línguas dos homens nas bifurcações das lixeiras
Onde répteis se enrolam expelindo a saliva venenosa das maldições
Alimentadas pelos odores nauseabundos das pocilgas asquerosas
Dos porcos amestrados crucificadores de velhos e crianças

Silvam os humanos e grunhem com potência tamanha
Que se confundem com bestas do submundo
Ausentes da consciência que os torna seres predadores
Nada constroem tudo devoram
Nada edificam tudo arrasam
Nada criam tudo plagiam
Tudo destroem  e manipulam em macabra gula
Nada nasce de si  tudo imitam
Impregnadas da perceção linear ao subsolo
Só erguem a cabeça atarracada para respirar
Os ventos do desencontro

Permanecem as línguas dos homens nas ramificações das estrumeiras
Onde as cordas do enforcamento aguardam os pescoços
Dos que gritam a denúncia do envenenamento dos lagos
Da morte dos cetáceos a asfixia dos peixes
O corte das árvores as violações das mulheres

As cordas aguardam o estrangulamento
Ao serviço das criaturas vermes sugadoras de flores de beleza
E esperam de laço pronto a queda sobre o pantanal
Dos silenciosos submissos inócuos inermes sob hipnose
É por isso que as línguas dos homens crescem nas bifurcações das lixeiras!