Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 18 de abril de 2015

Partículas de esgotamento



Agitam-se corpúsculos no espaço indelével
Feitos de sombreados onde o gelo se instala vertiginosamente
Na ponta dos dedos massacrados pelo desalento
As mãos já não batem palmas
Os cânticos de sílabas apelos ao divino
Esfumam-se pelo pôr-do-sol
E a noite trás consigo a revolta
O manto longo de uma existência tonta
Que saturada pede ao sagrado
A permissão do silêncio da quietude
Anulando em si o sentimento de injustiça
Pois as portas que outrora permaneciam fechadas
Agora abrem-se pela chave ou por um encontrão
Pois que com o tempo a matéria se tornou quebradiça
E a fera ferida investe contra os muros da prisão

São lançados pela agonia enjaulada dardos envenenados
Porque a zanga é com o Mundo inteiro
E a impaciência gerou no seu coração
Garras potentes sem piedade nem freio

A criatura falou grunhiu  ameaçou
Gerou no ventre a palavra mascarada
Onde se empurram os fazedores de tragédias
E onde os dentes mastigam a própria língua desanimada

Abre-se a boca para expelir os trovões do desencanto
Por entre lábios cortantes
Provoca-se nos céus escuros a tempestade
E perante a chuva caída em corpo nu
Ouve-se na profundidade cósmica choros acutilantes

Depois entra-se no ritual do esquecimento
No mecanismo puro de ligação às estrelas
Já não há luz que ilumine
Tudo se apaga
Não há nem pirilampos nos campos nem velas
E o lapso de tempo vão
Avisa-nos que estamos no limiar de outra dimensão


domingo, 12 de abril de 2015

Acumuladores de desperdícios



Por que rios do desassossego se perdeu a espécie humana
Que transformou a natureza límpida e pura
Em espaços de acumulação de desperdícios
Nada escapando ao bordado galáctico
Dos venenos disfarçados de eternidade
Esquecidos que também eles são efémeros

Por que mares navega o homem
Que se afoga nas tempestades da demência
E asfixia em dejetos
Que se torna criatura maldita
Edificador de forças estranhas dos incorretos
Espezinhámos o alimento que nos faz crescer
Degolámos os que nos deram o pão
E entrámos em ritmo de esmagamento de vida

Por que florestas nos embrenhámos
E que pântanos submergimos pela negritude dos medos
Que lama aplicamos nos nossos rostos
Arquitetando máscaras de engodos
Que nos aconteceu que brutalmente cortámos
O  cordão que nos ligava ao sagrado
Tudo se vende tudo se compra na sociedade  humana
Que se transformou num mercado


Por que céus cinzentos de nevoeiro
Vibra a paranoia mental
Que nuvens de tempestade trovejam
Incendiando os campos nutritivos com seus relâmpagos
De que bocas saíram as palavras da falsa acusação
De que visões macabras se fez a crucificação
De que criaturas saíram as decisões históricas dementes
Sem que houvesse revoltados insurgentes  

Pressa



A pressa deambula camuflada no alcatrão das ruas
Esbraceja debaixo do sol nas esquinas das avenidas
Esmorece preguiçosa nos carris do subsolo
Levanta voo por entre as folhas de Outono caídas

A pressa esconde a opressão das almas
Os homicidas que se mascaram mesmo nas tardes calmas
Amordaça as vítimas que silenciam a vergonha
Porque a sociedade lhes impôs regras
E tal é o choque da nudez cadavérica dos maus tratos
Que a reação e a revolta desaparecem bem  fundo junto ao coração

A pressa disfarça-se  nas escadarias do governantes
Nos contratos assinados por debaixo das mesas
Nos empurrões intimidantes do gutural
- Fazes o que eu quero o que eu mando senão há sarilhos
Um chicote que te marca o corpo as mãos os dedos os teus filhos!

Os predadores inventaram a pressa
Onde já nunca se chega a tempo
Porque o tempo é manipulado pelas garras
Da ambição desmedida estapafúrdia
E assim come-se abraça-se beija-se a correr
Sem sabor com corpo presente e pensamento ausente
E os ponteiros desgraçados do relógio que são agulhas narcóticas
Que se espetam nas veias e fazem deambular os mortos vivos
Nas vias circulatórias das cidades

Este é o meu mundo!
Quem dera absorver do mais profundo buraco negro
Que tudo tem e tudo abarca
A energia da mudança matando os ócios
Que tarda radicalmente em chegar!
Talvez o atraso seja devido aos predadores senhores dos relógios!


No entroncamento das searas



É no entroncamento das searas que os meus olhos cegos
Vêem as raízes das árvores mães debatendo-se pela criação
Ávidas de água pulsante transformadora de sementes
É na encruzilhada das searas que o alimento se faz carne
A carne se faz gemido o gemido se eleva ao grito
E o grito se codifica em palavra
Mas a palavra do homem tem lâminas de corte afiadas
E o entroncamento é balança decisiva engano perfeito
Alimento contaminado
Falso arado

Quem dera que em plena seara
As papoulas esvoaçassem ao ritmo do vento
Os lagartos sobreviventes descansassem das correrias ao sol
Quem dera que as searas se desfizessem em pão de paz
Nutriente de sabedoria ativador de reminiscências
Para que nos pudéssemos reconhecer como semelhantes
E não nos perfurássemos de raivas encenadas nos cornos das bestas

Quem dera que as searas que desapareceram no meu país
Voltassem de novo a desabrochar nos campos
Nas imensas planícies onde malmequeres brancos sorriam à lua
É que as searas perderam-se no entroncamento
E seguiram outro rumo atraídas pela vaidade
Pelo poder pelo dinheiro
E agora chegou o tempo das bocas vazias
De poucas alegrias de suicídios determinados
Pelas cabeças depressivas dos humanos
Que deixaram de saber o que é uma seara
E chafurdam em perfeita amnésia em falsas melodias!

Rasto



Deixei para trás um rasto
De cinematografia caseira
Onde pais cantavam e dançavam
Onde avós em alegria derradeira tocavam

Deixei para trás documentos
Desta vida de transição podre sevícia
Amarelecidos desbotado sem ambição
E esperei pacientemente que se tornassem
Bandeiras da justiça

Mas os anos passaram
A minha alma arrasaram
E aprendi a fazer da mágoa
Apenas um teatro trágico
Onde só ergo o palco quando quero
Afugentando em estratégia de rebelião
A máscara do martirizante mágico

Estouvada que fui ao ter fé no humano
Só depois aprendi
Que há criaturas das trevas
Que se alimentam da luz dos vivos
Então propositadamente
Coloquei no baú das lembranças
As fotos em papel envelhecido pelo tempo
E definitivamente atirei para o lixo os negativos