Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 25 de abril de 2015

Bem-vindos ao circo



Bem-vindos ao mundo da competição
Das multinacionais das propagandas
Anunciem o betume e o silicone
O telemóvel de última tecnologia
Distribuam sorrisos e sonhos
Ideias gigantescas e quimeras
Máscaras de beleza que assentam
Lindamente ao comum dos mortais
Como uma paradigmática certeza
Banha de animais degolados unhas de gel
Para a formosura das garras e da pele

Entrai senhores e senhoras
Deliciai-vos com o toque veludo
Dos cremes milagrosos
Que põem a trabalhar
Mesmo os mais preguiçosos
Engoli a pílula da juventude
E renascerão ainda assim  os que têm falta de saúde
Vinde fazer um brinde em cálices de cristal
Porque beber um copo ninguém pode levar a mal
Vinde propagandear as vaidades as superficialidades
Porque ludibriar o querer humano é passo mágico
É sorriso paradoxal  de palhaço

Vinde pegar no volante potente
Da viatura multiforme multicolor
Com que são presenteados
Acelerem porque tempo é dinheiro
E engolir a vossa dignidade
Torna-vos milionários
Num mundo a abarrotar de otários
Venham até mim preencher esse gigante ego
De coração vazio de alma gelada pelo frio
Transfiro já para o vosso espírito somas avultadas
À custa de vidas castradas
Mas que pouca importância têm
Perante as vossas mãos famintas de pontas afiadas
Venham até mim que sou gigante barbudo das patacas
Peçam-me de joelhos o poder
Deslumbrem-se mostrem os dentes almas penadas
Pois para meu regozijo são escravas de mim sem o saber!

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Viagem sem regresso



Abandono os céus sob os quais a espécie humana
Se desflora a si mesma
Onde os mundos da agonia se cruzam
Se enforcam se abusam
Deixo sem vontade de comunicar com o transitório
Com o conflito o sangue o tresloucado o fantasmagórico
Levanto asas rumo à profundidade cósmica
Finalmente descanso hiberno para o invisível
Pois o estado terreno é música cortante
Gesto de amante choro de criança
Grito de mãe bofetada ciúme inveja posse azedume

O medo comprime a criação e o homem
Na guilhotina da paranoia
O sonho expande e transporta as criaturas
Cada vez mais longe para lá
Da pluralidade dos submundos estelares
Por isso não volto!
Deixei de entender a língua afiada dos homens
Corto as amarras sigo outra rota
Rumo à galáxia que não existe
Nunca se alcança
Tal como a linha do horizonte
Que falseia a perceção
Saltito então em forma de vaga-lume
Em campo aberto multicolor melodioso
E eternamente manso

Escravidão




O sangue percorre os rios do subsolo
E aflora jorrando dardos de morte
Fogem as mulheres e as crianças do inferno de podridão
Em que as entranhas da Terra devolvem às bocas
O que as criaturas derramam no chão

As feras enlouqueceram e as crias assustadas
Lançam-se em correria para um fictício auxílio
Ávidas de outros solos outro sol outros braços
Que não desfaçam os laços
Mas ignoram que o Mundo inteiro é ratoeira
Como se fosse cama caixão uma rasgada esteira
Não se descansa não se dorme
Em vigília de fome

A espécie humana alimenta-se do absurdo da insanidade
Bem lá no fundo do hipotálamo disfarçada de lesma
Reside uma pequena semente de imbecilidade
E o fenómeno da decadência moral prevalece
A loucura é a mesma

Na ânsia de golpes profundos na carne
Repete-se a vibração das trevas
Só há uma opção uma escolha paradoxal
Escolhe-se a forma de morrer
Porque é só nesta eleição que se premeia
A escapatória do averno
Entre a catana que esquarteja e o abismo do mar
Premeia-se o afogamento pois surge
Como gesto de socorro último recurso
Como única hipótese mesmo débil de sobreviver