Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 23 de maio de 2015

O último sopro




A consciência fez-se carne e adquiriu forma tosca
Rastejou tentando erguer-se
Insurgiu-se contra os mecanismos do ser e do acontecer
E baralhou-se nestas andanças
Foi treinada nos cornos da besta e sobreviveu incólume
Sem laivos de ódios ou raivas de matanças
De danças cadavéricas de múltiplas crenças

A consciência foi massacrada manipulada maltratada
E venceu em batalha inglória
Agitou-se refletiu renegou a sua condição absurda
E em vontade imperativa voltou costas
Serviu-se dos pulmões limitados
Para gritar que não iria por ali pelo reino da paranoia

Levantou-se a consciência
Quebrou os nós porque lhe feriam o coração
Dilacerou as entranhas mas libertou-se das amarras
Arrancou a mordaça e seguiu caminho
Viveu então soletrando a partilha com significado
E desejou descansar ao som do correr de água
Nas pedras do ribeiro
Porque o seu espírito já não era quebrado mas inteiro
O último sopro era dirigido ao canto irrequieto
Dos pássaros nos aprazíveis outeiros
O seu ténue sorriso espargiu-se
Nas ondulações invisíveis do vento acariciador de cabelos

Consciência e vento enrolam-se e formam o mistério do tempo
O último respirar vai em direção ao sol de aconchego
Na derradeira quentura do ultrapassar em êxtase o portal
Deixando para trás degradações paradoxos
E a energia doentia do mal

A consciência envolveu-se na agitação da folhagem
Nas enormes e velhas árvores
Que lhe segredaram ao ouvido
O cumprimento do adeus destemido
Como quem se vai juntar em voo de condor
Eternamente aos semelhantes de amor

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Fissuras do tempo



A escrita que me tatua o corpo é gravada
Por entre as fissuras que se fraturam no abismo do tempo
E desta forma transformo-me no molde inacabado
Por entre golpes profundos de espada
Que cavam veredas na fronte transpirada pelo cansaço
Erupções calcificadas brotam das entranhas
Como se desabrochasse do casulo que sou
Uma entidade desconhecida e peculiarmente estranha

Que batalhas os meus olhos constataram
Que vestígios de golpes sem dó nem piedade me quebraram
Que respirar é este que sufoca
Que formigueiro na garganta anula o grito de socorro ansiado
De neura pelo existir martirizado

O vómito contido que se instala na garganta
Tem a mesma cor do escarro com que os homens se agridem
Enlouquecem preguiçosos deixando que a consciência se ausente
Para outra dimensão
Pois os olhos raiados de sangue a calamidade humana anunciam
E as tonturas do meu cérebro pressagiam
Como se a catástrofe penetrasse no meu efémero ser
Numa espiral de autodestruição
E deste feito renascesse uma eminente libertação