Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Pássaros mensageiros



Quando os pássaros baterem asas estarei longe
Desagregada dos calabouços de contaminação
Aguardarei apenas serenamente o romper
Do cordão umbilical que me liga
Aos desabridos da confusa vida

Quando os pássaros planarem no alto
Em bandos de socorro em debandada
Fugindo ao escuro como breu
Ultrapassarei os caminhos das serranias
E estarei de novo mais perto do céu

Quando os pássaros se revoltarem
Contra os homens que os maltratam
Prendem-lhes o voo cortam-lhes a respiração
Fazem tiro ao alvo às asas
Partirei com eles mesmo sem penas
Porque pena tenho eu destes seres famintos
Ávidos em destruir
A mãe Terra que os fez nascer 

Vampiros à solta



Alimentam-se as bestas ávidas de sangue
Atraindo as vítimas em situação de fragilidade
Entram em jogos de engenhosa manipulação
Na inevitabilidade de um jorro ancestral sem idade

A ambição de posse é genética
Empurrando os jogadores de vida e morte
Para o entrelaçamento mortal
Onde os grilhões se movem
Obedecendo a forças que não sabem
Humanamente distinguir o bem do mal

Há vampiros que se alimentam no silêncio
Perante a calamidade demente e patológica
Que se infiltra na mente
Em campo degradado imenso
Deste aglomerado de gente

É o medo a cobardia a divisão
Egos confusos ávidos de aplausos
Que aumentam o número destas criaturas da sucção
Que se riem como hienas na nossa cara
E sem vergonha dançam em nosso redor
O ritual acabrunhado da extinção

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Desperdícios cósmicos



Linhas movediças em luz na negridão ondulam
Criam artifícios de diversão para elas próprias
Enquanto os ovos aguardam e pelo abismo pululam
São ligamentos sem cais que se atracam em frotas

Olhos múltiplos desafiadores frios das profundezas
Investem as mandíbulas contra os próprios membros
São lunáticos parasitas excrementos
Criados nos poços cósmicos
Repletos de detritos e sedentos de criação
Mas a beleza é falsete sem braço sem mão
Instrumentos de venenos indigestos

A pulsação estelar revolta-se e as estrumeiras expandem-se
As criaturas térmicas enferrujam e mastigam-se
Os dedos da animalidade passeiam
Por entre o gelo galáctico e mirram
O cosmos liberta excedentes
Materiais orgânicos que no submundo brotam

A energia jorra expele a saliva da dissecação
Corta os tentáculos do vazio
E mistura-se com a podridão
O ácido corrói a rocha ansiosa
De transformação e oxigenação

Raios faíscam e empreendem a tarefa hercúlea de adubar
Espraiam  agitam chocalham tempestivamente
Moldam a forma a dimensão o respirar
E sucumbem exaustos no semear
Depois pacientes esperam pela ressuscitação