Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O ruído da grafonola



Saltimbancos montam palco no centro da povoação
Trazem fitas estrelas berlindes e doces para a criançada
Que se alimenta ávida de curiosidade pela novidade
Atrás do palco as feras aguardam
Que o deslumbramento do primeiro impacto
Faça o efeito da hipnose para que se iniciem
Na ovação à imbecilidade

Permanecem invisuais e mudos para que os palhaços
Mandados pelas predadoras pulseiras metálicas
Possam esquartejar romper e exigir aplauso
Porque só o bajular os fortalece
A indiferença os endoidece

O ruído da grafonola corrói os tímpanos
Da assistência que se agita frenética
Enquanto lhes corre nas veias
Narcóticos imprecisos pós adulterados
Vendáveis no mercado dos alienados

A vitrola estridente manobra-lhes os gestos
Permanecem na obscuridade da marcha genocida
São os que não se apercebem que o sistema
É corrupto e está viciado
Pela estratégia da hiena que ri enquanto retira
O alimento ao desprevenido leopardo

As grafonolas deste país invadido
Que afugentam para o desterro
Quem nasce neste flagelo
Ficarão um dia esquecidas e enferrujadas
Sob o lodo de excrementos que elas próprias defecaram
Porque há um equilíbrio cósmico para os que abusam
E sem pejo sem dó nem piedade maltrataram!



quinta-feira, 11 de junho de 2015

Expansão



Multiplico-me em espiral
Dilato-me em rede
Balouçando ao sabor de forças magnéticas
Que propagam o permanecer na inconstância
Procurando semelhanças vivas frenéticas

Por instantes transformo-me em livro
Que flutua no mar em tempestade
Sou alimento para o faminto
Que há muito tempo não come
Pranto escondido pela triste realidade
O sorriso que prevalece apesar da fome

Expando-me para além da água salgada do oceano
Parte de mim embrenha-se na terra
No parto que acontece no caos da guerra
Desagrego-me e em pó
Na noite estrelada subo ao cume da serra

Retorno à criança que sobrevive à queda
E é adjuvante de puros recém-nascidos
Desfaço-me como quem parte
Para outra dimensão e desta nada leva
Porque os objetos de luxos e vaidades
Deixaram de ser precisos

Janela para o abismo



O sofrimento deambulou fechado
Pela materialidade das criaturas
Que ignoram como sair da perpétua vibração
Das maleitas das chicotadas
Da incómoda indigestão
Os ácidos unem-se nas entranhas envelhecidas
E corroem os órgãos em patológica propagação

A dor bloqueia os ecos do abismo
Ensurdece o cantar da consciência expansiva
Para além da janela do esquecimento
Olhos saudáveis cegam na visão cósmica
E o trabalho concentra a perceção
Em esquemas adulterados de sobrevivência
Enquanto a agonia conduz o corpo e a alma à decadência

É dádiva neste centro de furacão gigante
Ter o amor sagrado de alcançar
Uma luz lá longe na escuridão do céu
Transformada em estrela cadente
Anunciadora da boa nova
E transformar um encontro fugaz
Num partilhar de vida eternidade e paz