Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Espírito



O espírito procurou a liberdade do olhar cor das safiras
Cristalizando a beleza do amor
Procurou o cântico das crianças
A alegria intensa dos seus rituais e danças
Ultrapassou a janela
Pulou para dentro do círculo da consciência pura
Sintonizou o espaço de plena natura
E reconheceu o semelhante
A família o lar o pai o filho o amante

O reino da comunicação explanou-se
Como fogo de artifício e os afagos as carícias
Edificaram uma relação forte e segura de delícias

O espírito aninhou-se no calor humano
Partilhou o espaço o assento o leito
E as qualidades desabrocharam
Extinguindo o desalinhado defeito

Envolveu-nos o espírito com seu disfarce
Protetor de maldições confusões fragilidades cruéis
Inconsciências coercivas
De vibrações débeis obscuras obsessivas


Quem sabe se não veio para ficar connosco
Empreender o caminho e viajar
Para depois alcançarmos o descanso profundo
Tão desejado e salvaguardados finalmente
Das maleitas do Mundo


terça-feira, 16 de junho de 2015

Voltar para casa




Crio em redor de mim uma bolha
Que me protege de agitações patológicas
Raivas alheias ciúmes desregrados
E arenas de guerras ilógicas

Não sei se sou eu que me baralho
Que conscientemente falho
Ou se em redor de mim se agitam
Espectros sugadores de energia
E me atiram dardos de maldição
Provenientes do fel que os anima

Volto para  o lar onde a paz vibra
E o meu coração se apazigua
Porque a armadura nem sempre dura
E sinto na carne e na mente
As línguas cortantes convencidas e doentes
Subterfúgios polidores de egos
Que contaminam e bloqueiam
A explosão da criatividade
E autómatos repetem a medíocre rotina

Que seja sereno e repleto de plenitude
O retorno a casa pois para amarguras
Gestos indignos chacotas desnecessárias
Sufocos injustiças e ditaduras
Já basta a minha dúbia existência
Evitando a custo o trilho da demência

Alucinações


O medo gritou e algemou o fraco
Mas a coragem riu-se nas fuças do bicho medonho
E deixou de sentir o sabor amargo

O chicote bateu e vergou o perdedor
Mas a vítima tomou consciência e revoltou-se
Contra o açoite instigador

A manipulação argumentou astuciosa
E convenceu o ingénuo
Mas este cresceu a ignorância afastou
E contra a manipulação se preparou

A posse apontou o dedo
E a criatura submissa ajoelhou
Mas levantou o olhar
Enfrentou a posse num esgar
E sem dificuldade se libertou

A Maldade dilacerou a carne
Assassinou crianças
E a assistência ficou muda inerte e cega
Mas o povo refletiu
Vociferou:
- Puta que os pariu!
E revoltou-se!

Há sempre duas faces da mesma moeda
Não se esqueçam os políticos
Que se inverte a espada
Pois no rodopio da cobiça
O instrumento aguçado dança
E nunca se sabe ao certo
Onde vai acertar a lança!

Caminhos turvos




Arrepia-me a cegueira com que nos embrulhamos
Como se sofrêssemos de miopia
E as manchas de sangue que a sociedade humana
Bordou em cortes profundos
Não passassem de papoulas vermelhas
Agitadas ao vento em campos abertos

Enlouquece-me a avidez com que nos atafulhamos
De tecnologia desnecessária
Como se os dentes mastigassem metais pesados
E com isso adviessem monstros mecânicos
Serrações galopantes de criaturas
Desmembradas pela bestialidade

Enfurece-me que os príncipes e as princesas
Os magnatas e os peraltas acumulem as riquezas
Que retiram o alimento às crianças
E dos adultos que sentem o desterro sem esperança

Para lá das cortinas escuras descortina-se
O peçonhento desequilíbrio que idolatra o abastado
E desrespeita o pobre porque o jogo da ambição
Tem mais força do que o da dignificação
E a vontade das criaturas humanas
Ainda permanece encerrada na gruta funda
Os moldes da crueza da ganância da avidez perpetuam-se
Quem sabe um meteorito sabedor anunciador do caos
Destrói o andamento desta engrenagem bizarra
Que corrói almas e desta destruição
Diferentes valores e outros moldes se farão