Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 18 de julho de 2015

Intermitências





Quando as intermitências falarem
Haverá uma névoa solta imprecisa e ténue
Invisível para o comum dos mortais
Sobre as nossas cabeças
Quando as constelações nos invadirem
A vontade cósmica segredará
Ao ouvido do inconstante
Para confiar no processo
Pois não há falha nem sucesso
Não há ir e regresso
Não há perder e ganhar
Há apenas uma simples sabedoria do saber estar
Onde as sementes germinam os ovos eclodem
Os óvulos dividem-se alheios ao homem

Que morte é esta que se mascara de vida
Como surge a negridão gelada
Que faz explodir as estrelas
Que dançam na via láctea calada
Que sangue é este que se volta contra o corpo
Da criatura mãe temporal
Sem aviso sem abraço
Para além do bem e do mal

Transmigra-se a passagem deste mundo
E nesta transição em que não há sentido
Nem ilusão nem realidade
Nem crucificação nem velórios
Cria-se atabalhoadamente um viver de gatafunhos
Defuntos contaminadores respiratórios 

O pó dos caminhos





Esgaravato as veredas do silêncio
As sargetas imundas que dobram fétidas
Os cantos as caves onde não há olhar que paire
E as teias suspensas inertes em tetos ocultos
Aguardam as criaturas do desaire

Ferem-me os tímpanos os gritos intimidatórios
Mesmo sendo de outros espaços outros oratórios
E piso sem querer as manchas de sujidade
Por entre pegadas sem luz sem afetos sem faculdade

Martelam na minha cabeça os choros magoados
Em pânico tristonhos e revoltados
Frustrados os alvéolos pulmonares
Palpitam amedrontados
Em bailes de donzelas alheias ao corrupio
Confuso egoísta e sem brio

Cada passo é esforço um gesto forçoso
Porque o paradoxo com que me enfeito
Não tem sentido não tem jeito
Cada inspiração é roubo descarado
Ao elemento degradado onde farrapos nascem
Onde a poluição humana se impregna
E as gotas de suor coadjuvantes desfalecem

O histerismo das gazelas



Saltitam as gazelas tontas
Esbaforidas de focinho erguido
Pulam o espaço do ameaço
E entre os cascos elegantes
Passeiam-se no gargalhar
Da espécie altiva
Saltam o muro
Voltam costados ao decoro

Riem como hienas
Esperando a próxima vítima
As crias revoltam-se perante
O histerismo das gazelas
Gritam também e a trepidação é tal
Que os dentes riscam tatuagens 
De simbolismos ultrapassados em descrença
Como se à manada fosse imperativo
Gravar um rótulo uma qualquer pertença 

Agonia-me o histerismo das gazelas do asfalto
Patas batendo piruetas ao alto
Arrancam os canteiros
Devoram as flores
Insensíveis às alheias dores
Alisam o pelo porque o seu mundo é belo
Que desilusão a minha alma acalenta!
É que os olhos das gazelas escondem
A crueldade prazenteira e airosa
Por detrás do melaço florido de uma rosa