Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 8 de agosto de 2015

Recolhimento



A luz enganadora pinta os enfeites
Na cabeça enlouquecida das marafonas
Correndo no seu âmago o rio gélido do abandono
As cores os limites as vaidades fantasiosas as formas
Tudo é esborratado na tela gigante do mundo
E nem o riso evita o gigante estado demente medonho

A falsa luz compõe dispõe em clorofilas
De pó solto nas planícies maravilhas
Mas no poço fundo acontece o consciente sofredor
Em espasmos de articulação ambulatória
Que amaldiçoa o conflito a falência o horror

Tateia a luz a visão do polvo
Contorce o corpo adaptando-se
Ao meio negro líquido impreciso
Entontece no jogo de comer e devorado ser
Praticando a caridade em postura de indeciso

O macaco salta pula não vacila na encruzilhada
Gesticula na selva em satisfação partilhada
O homem degola o homem na lâmina do degredo
Esconde-se nas reentrâncias da ansiedade de sobrevivência
Espezinhando violentando e derrubando o arvoredo

Na incongruência da morte são feitas manobras
Enquanto a rotação das espécies cria fagulhas
No alcatrão que se derrete ao sol e não evita as sombras
O calor abrasador faz ressequir os corpos
Molda-os mumificados na beira da estrada
E na incomensurabilidade cósmica
No orifício entre a pequenez e o gigante
O humano é corrompido pela calada

O alheamento seria presente
Perante catástrofes incontornáveis
Mas para mal das minhas opções
Permaneço ainda no grito abafado e a boca cerrada
Há o tempo a seu tempo
Mas alívio dos alívios
Quem me dera fechar os olhos e descansar
Finalmente na intermitência do nada

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Brancura



A brancura com que me cubro
É o manto sentido do desencanto
Do confronto dos soluços contidos
Que ameaçam inundar esta alma calada
Deste lado da crueza sem defesa
Deste fogo que transforma em cinzas
O florescer viçoso sem delicadeza
Numa fração de tempo em que as borboletas
Rebentam vendavais em lagartas sequiosas
De voarem sobre as pétalas de veludo dançantes lírios
Ondulantes papoulas  malmequeres e rosas

Esta brancura é feita de batalhas
Onde os olhares da descrença incendeiam as cearas
Onde pés cansados procuram o alívio
Da linha imprecisa e irrequieta do rebentar das ondas
Onde as amizades sangram e são cada vez mais raras

Esta brancura com que me visto é presa
Ao laço estilhaço de um grito de dor humana
Que entra no labirinto da agonia
De outros olhares cansaços outros embaraços
Outros gritos outros aflitos passos
Em tonalidades de desgostos cegos
De uma força que se afunda rodeada de enguias
Afogada num emaranhado de rios e lagos

Esta brancura é a captação da energia
Do reino da temperança da virtude da justiça
Do equilíbrio da guarida
É voo da serpente corda vibratória
Que oscila na profundidade cósmica da vida




Estado larvar



A contaminação desponta nos chifres articulados dos germes
Enquanto caricaturas trágicas salvam a sua prole
A larva deixa de sonhar com o ambicionado poleiro
E entre correntes de veneno apodrece em tecido mole

Seres em estado transitório disfarçam-se de semente ondulatória
Sem cérebro sem alma sem querer feito mistério
Sem guelras sem pulmões sem memória
Alongam-se num espaço fatal os rastejantes
Invisuais esquecidos inconstantes

O silêncio impregna-se de viscosidades latejantes
Orgias e algazarras mudas em estado larvar
Reproduzem o cio dos desejos gaseificados
Vegetam entrelaçados pelos escombros sem altar

Do estrume fedorento nasce o fungo
Ergue-se o bicho do lixo criatura austera
E comandado de dentro de si próprio
Reproduz finalmente o ciclo da Primavera