Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 15 de agosto de 2015

Discurso dos deuses




Os reis do mistério circundam em orgias galácticas
Provocando a genética dos velhos símios
Moldando vestígios de pisadas magnéticas
Tecnocratas dos artifícios dos altares em suplícios

Abraço fatal dos coroados da Terra
Idolatrias dos miseráveis que eclodem longe
Dos sistemas da rotulagem das lanternas
Da vegetação luxuriante das fábulas
Que debitam e decidem o destino dos inermes
Em gravações de códigos ditatoriais a fogo em tábuas

Os discursos apologéticos dos deuses
Decompõem-se na ambiguidade das alegorias
Apontando a espada ao coração dos indecisos
Explorados pelos medos e fugazes fantasias

A melodia da reação elementar
Faz surgir fagulhas intempestivas
Comemorando a existência
Escarafuncham os homens
Na ferida aberta das metáforas
Porque só o mito provoca o conflito
Da fealdade e beleza
Da certeza e incerteza
E ultrapassa hostilidades bárbaras

O timbre dos deuses faz pacto de fragilidade
Com o conhecimento humano de façanhas pródigas
Afundam-se no labirinto das palavras ecoantes
Na profundidade dos abismos da  mãe natura
Transformados em artérias vulcanólogas

Que criaturas somos atiradas para um ostracismo
Mascarado nas vértebras quebradas dos rastejantes
Permanece a revolta desta condição desatinada
Refeição azeda alimento de outras bocas  
Para deglutições subtis e pútridas

Cosmos lagarta



A rutura invade rompendo a comunicação
Com os terminais respiradouros desgastados
E pela imobilidade das árvores hirtas
Concluo catatónica o parar do tempo
Nada se move e eu não existo
Aconteço provavelmente filha do erro
Como um prolongamento do firmamento

Crepita o olhar estonteante
Por entre moléculas de vida
Abrem-se as válvulas do motor
Em perfeita ignição
E em faíscas caóticas
Desliza o elo de união
Bendita amnésia que tudo agrega
Tudo mistura e tudo venera em perdão

O cosmos lagarta que se contrai e distende
Para se movimentar
Constitui o labirinto da energia perdida
Um jogo indiferente entre o ser e o não ser
Como energia encontrada
E as criaturas osmóticas são a ressalva
Os foguetes de entretenimento explanados
Na gigante tela do virtual céu
Em noite de lua cheia das estrelas destacada 

Mergulho na escrita



Tomba o cansaço na profundeza das pálpebras serradas
Unem-se as mãos captando a paz imaculada
Que flutua algures na via láctea guardada
Não importa a direção o Norte
Em posição fetal encontra-se o ninho
E cria-se à volta uma bolha protetora
Promovedora de melhor sorte

Encaminham-se os passos para a sombra fresca dos abrigos
Descortina-se um altar e cânticos humanos fazem-se ouvir
Os vitrais transparecem na luz dentro dos templos
E o silêncio é visita que exclui a loucura a violência a ditadura
Provocando o abanão de outras tempestades outros ventos

O mergulho na escrita sem códigos deixa que a palavra
Se agite como um campo aberto onde se lavra com os dedos
Nem pensar nem julgar e a ligação surge em centelhas de revelações
Que rodopiam em cores e melodias e por breves momentos
A salvação impõe-se livre de moléstias e confusões


Tombo de cansaço uno as mãos
Encaminho os passos para o silêncio
Deixo-me trespassar por revelações
Mergulho na escrita sem julgamento

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Complexidade helicoidal



A simplicidade esvoaçou ingénua
Por entre os jardins da beleza apolínea
Enquanto os olhares famintos do mundo faiscante
Seduzem as libelinhas fazendo razia
Ao espelho sem hélice
Apenas o pesado besouro intruso se prepara
Para a dança da sedução das espécies
Batendo asas num frenesim folclórico
Juntando-se aos demais insetos
Alheios ao invisível remoinho
Onde a folhagem se eleva em furacão
Brincando com os pássaros que nidificam indiferentes
Ao movimento das pás no topo do moinho
Construção de insurretos em constante gestação

A simplicidade riscou então o fósforo do descontentamento
Arrepiou-se numa mistura de horror e prazer
Cavou mais fundo descobrindo o labirinto intravenoso
E em subsolo de estranhas epidermes
Depositou os ovos em campo cavernoso

A simplicidade diluiu o novelo desfiado
E seguiu o fio até ao infinito num eterno recomeço
Descobriu então que se equivocara pois um avião no ar
Precisa de complexidade para ficar parado

Foi então que a complexidade explodiu os corpos
Os estratos os excertos e extraiu-lhes o gemido do espanto
Da estranheza da fealdade da falsa certeza

A complexidade derrubou os muros
Inundou as cavernas da podridão e enleou em espiral helicoidal
As raízes das árvores nos pedregulhos dos deuses
Desfazendo em pó o que era rochedo
Aplanando o que era montanha
Fazendo brotar água onde era deserto mas enganou-se
Estava longe do sagrado pensando  que estava perto!