Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Rio profundo




Há um rio de caudal largo e profundo
Onde a limpidez das águas adquire
A tonalidade dos rochedos que beijam as margens
Igual a muitos rios que irrigam as terras
E tornam verdejante o que é árido entre folhagens

Os olhos que me guiam procuram uma forma de atravessar
Porque é imperioso nestes tempos abissais de insanidade
Ter a coragem de arriscar combater defender e mudar  

A embarcação espera e decide quem fica e quem parte
Quem permanece prisioneiro do medo do medonho
E quem quer visionar uma nova cidade humana
Entre quem se mantém pelos erros sucessivos
Das rotinas do nada fazer e os que sendo altruístas
Decidem-se também por empreender
Entre quem se esconde atrás dos rótulos dos estatutos
Da ganância preguiçosa dos corruptos
E quem apenas ambiciona celebrar a dádiva da vida
Ao ritmo de uma dança bela meiga colorida

As mãos prolongamento do meu corpo invólucro
Agarram o corrimão do barco salvador
É para a outra margem que quero mudar
Os meus dedos ficarão em contacto com os nutrientes da terra
E plantarão as sementes da sensatez da tolerância
Porque a vida humana é junção e não distância
É presença cuidado e não ausência
É quente  abraço aconchegante regaço
É beijo carinho riqueza maternal
E não vibração patológica destruidora do ninho


Insanidade das almas




Rodopia o Mundo nas hastes desenfreadas da besta
Sem ética sem estética soterrada pelas normas obsessivas do terror
No coração do homem palpita a desesperança
Com as sombras fazendo mórbido negócio dúbia aliança

O humano transforma-se em estupidificação
Comida para tubarões um horror
paranóia invade o rosto do indecente
Troca-se o pai o filho por armamento
Destruidor mercantilismo bélico
Combater esta desavença esta falsa crença é premente

As artérias agitam um sangue contaminado
A podridão exala um odor permanente
E bem lá no interior do hipotálamo desmembrado
Só a negridão contamina o cérebro afanado
Produz o medo a crueza do degredo
O estômago vazio do mal-amado
Só os catos sobrevivem imundos
Neste planeta de cortes profundos

Asfixiam as almas no purgatório improvisado
De um carrasco sem nome sem rosto
No manicómio onde é rainha a paranóia
E as plantas trepadeiras armadilham os trilhos
Dos desengonçados sem do amor terem memória

Mundo este onde as normas se revoltam
Contra o próprio que as rabisca
Onde a morte grita vitória
E os desprotegidos e os silenciados
Caem por terra de forma inglória