Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

domingo, 27 de setembro de 2015

Líbido




A líbido contemplou embevecida um levantar de saias
Deliciou-se com o sapateado esfuziante da fêmea
Em época de acasalamento
E foi direta ao centro da consagração do ventre
Fruto pensado palavra expelida voz infinita
Grito existencial vagueando no cosmo sem guarida

A líbido invade em traição perfeita
O sangue da criatura desprevenida
Que eufórica pensa estar a entrar no ritual de aplauso à vida
O sentir da carícia eriçando a pele insaciável
Que extravasa desvairados enredos
Os órgãos genitais condutores de eternidade
Transforma-se na chave que abre o cofre dos segredos

O véu branco incide sobre os amorosos
Que esbracejam esperneiam
Enredados pela delicadeza da subtileza
Sobe-se aos píncaros do vulcão em erupção
Queima asfixia esquarteja destroça
Mas qual ser saltitante na invisibilidade
Delicia-se com a profanação
E o sexo escorre quente incontido
Pelo volutear endoidecido do furacão

Malga




Sagrado recheio em árido contentor
Boca ávida de alimento mãos em louvor
Barcaça simbólica que na intempérie nos sustenta
Divino elemento vivo que se mistura em austero recipiente
Fruta legume cereal e água tão variado e instável ingrediente

A malga é leito energia que acalenta
Bebível num trago e mais não faz falta
Engolir o cosmos combustível para o voo
Trava o desacato a embarcação a fome
É alegria homenagem ao dia à dança ao nutrimento
Que abraça o corpo por dentro
Um hino à paz ao nascimento
Calor carícia a quem descansa e dorme

Um repasto abençoado mesmo na simples pobreza
Malga branca malga franca
Malga pura apartada da insanidade da loucura
Hipérbole da dependência da boa vontade da inocência

Quem dera que cada malga encontrasse
A boca faminta aberta inquieta
Sem gastrites azedas sem falsas realezas
Sem tiaras de princesas
Apenas uma corrente de ligação em rede labiríntica
Em que a partilha é Rainha
Malga bilhete para a montanha  abundância de amor
Portal aberto de comunicação para a cintilação
Das vozes do apaziguamento do encantamento
Do ritual da folha de Outono que cai e rodopia
Com a melodia epifania do terno vento

A saga continua



A dança do ventre na confusão se distende
Línguas afiadas garras em desgaste
Arquitetam falsetes na orquestra de enfeites e lérias
Embutida nas paredes das artérias

Continua a saga das papoilas tontas no ar
À espera do sopro que as leve para um improvisado altar
Loucas as baratas perdem-se na poluição dos esgotos
Gargarejam em espaços angustiosos esvoaçantes
E os braços das sementes em rotação sem terem onde aterrar

O baile de máscaras retrocede ao primitivo
Do empedernido evacuando estratégias furadas
Rodas quadradas mal compensadas porque no ângulo reto
Permanece um obscuro manto incorreto
A saga continua a expressar-se no caótico
No robótico antagónico
E o bom senso cai por sistema em saco roto

A pulga sobrevivente contemplando
A  saga do vermelho papoula
Projeta o salto para outros jardins
A pobre da pulga não queria
Saber de bailes nem esgotos
Nem esqueletos robóticos
Ia construir um ninho forte e preciso
Longe das cheias torrenciais
E onde o grito por gentileza
Se transformasse em riso

O lado de cá



A obscuridade que fizera um acordo com a negridão abissal
Rebelou-se contra o escuro e num golpe cénico fê-la desaparecer
Pois que perante a continuação do nada era melhor ser e aparecer

Mas a obscuridade quis manter o trono
Embora no fundo de si mesma fosse um mono
E o ser e aparecer ficam faiscantes meros debutantes
Ingénuos palhaços bobos ignorantes limitados atados
Porque o atilho das trevas espreitava 
E controlava a cada momento
Inventando a promiscuidade dos elementos
Dos compósitos fedorentos

É que o lado de cá oprime controla reprime
Vitimiza decepa os corações
Faz as criaturas em barcas da necessidade e amargura
Permanecerem à deriva entre orgasmos de fogo-de-artifício
Ansiando todos o inalcançável paraíso

O lado de cá chicoteia abrindo fissuras
Na carne humana retalhando os animais
O lado de cá absorve as impurezas de cérebros conspurcados
Na patologia dos lagartos comedores de ovos

No lado de cá as vozes formam o coro do socorro
O grito de revolta pela intermitência das luzes austeras
Da desagregação da matéria
Desmembrando apunhalando fundo nos corpos
Fazedores de orlas de coral cadavérico poluído
Onde dançam as ninfas desobstruindo metais pesados
Que laminam a postura ovípara dos répteis
Que ambicionam o pódio e o aplauso dos milionários
Exploradores invasivos de espaços alheios
Manipuladores sem freios
Manhosos esqueléticos e feios
O lado de cá é o faz de conta onde a nudez é escondida
Porque o elo de ligação a corda que nos sustém
Que nos anima a todos permanece perdida