Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Vigilante




Bonecas de porcelana empreendem o rodopio
Da frieza disfarçada de sorriso cortante
De quem não sente a dimensão do outro
Pois o olhar envidraçado não reage
Permanece vidrado num ponto indefinido
Algures no ego matreiro e desalinhado
De quem nem se apercebe que transporta um fardo

O vigilante observa as tentativas de colagens das mãos
Que rígidas se hasteiam na ponta dos braços que não abraçam
Não são dobráveis e desconhecem os encontros
Dos lábios gélidos das bonecas saem grunhidos lamentosos
De quem tem de permanecer num estado corroído
Pelo tempo pela intempérie dos sonhos das ambições
E não perde a esperança malévola de ser
Adorado cegamente por abstratas multidões

O vigilante cobre o rosto com ambas as mãos
Absorvendo nas faces o calor
Provindo do elo de ligação ao sagrado em união
Descansa o olhar no serrar das pálpebras
E prevê o estilhaçar da porcelana
Que não serve para acarinhar envolver consagrar
Apenas uma beleza sem alma

O vigilante derrama lágrimas de tristeza
Perante a falta de delicadeza
Mas um sussurro segreda-lhe ao ouvido
O som melódico do não interferir
Recolheu-se o vigilante outrora combativo e guerreiro
O gelo avançava e era urgente
Uma viagem diferente seguir

domingo, 25 de outubro de 2015

Chuva



A chuva perguntou ao rio
Onde vais com tanta pressa?
Perdes-te na correria das águas
Diluis-te nas enseadas
Nas baías no alto mar profundo das mágoas

A chuva interpelou a montanha
Porque era fria inóspita austera
Que segredos guardava
Onde as grutas a corroíam
Onde as árvores centenárias a terra comiam

A chuva inquiriu os homens
Sobre o espírito de que eram feitos
Mas não encontrou resposta nem entre os esquecidos
Nem mesmo entre os eleitos

A chuva enegreceu
O céu ficou escuro como breu
E calculou que os seres inteligentes
Se deixavam arrastar pelas falsas correntes

Desistiu então de irrigar os campos
O homem desagregou-se nos flancos
Consumiu-se a ele próprio na divisão dos corpos
No estilhaçar das almas afundou-se no poço
Onde os algozes criaram raízes
Desmembrou-se onde o ciúme e ganância
Arquitetam a aniquilação da espécie ainda na infância

A chuva derramou as lágrimas sobre o deserto
Apaziguou o fogo revoltado
Moldou a lama em forma de lâmina
E esperou que a semente original do amor
Voltasse a germinar no planalto da floração
No pacífico templo da oração
Mesmo enfeitada de cansaço no dormente coração

Envolve-me chuva quero partir contigo
Porque o reino humano falha  e vegeto num jogo contaminado
Em que tudo se baralha e há muito tempo que tomei consciência
Que não me dá qualquer abrigo!



Rastos de rebeldia




A rebeldia aguçou o espírito os sentidos e alargou perspetivas
Enquanto semeava laivos de incongruências fugidias
Mas incapaz de se manter em promissor convento
Deu passos em direção à folia e ao ritual de encantamento

Sobrevive o vivente transformante no rio incerto da aventura
Onde os trejeitos das personagens agitam a bandeira do livre-arbítrio
Qual bacante em transe divinizado desmembrando as normas
Criando palcos de pura libertação abraçando o fogo ceifando formas

Sacerdotisa que provoca os cegos ignorantes os pedintes
Os acumuladores de riqueza no ribombar dos deuses
No quebrar das amarras sem jugos sem julgamentos
Apenas a afirmação da ânsia da vida sem subterfúgios de requintes

Um erguer de cálice à euforia ciclónica
Da turbulência magistral da força dos elementos
Um brinde à saúde plena esquecendo  posturas
Amarguras patológicas e composturas

O sorriso e o riso festejam o final da guerrilha
Porque o grito jorra agitando o estandarte das tréguas da paz
Como vencedor medalhado pela natureza verdejante
Enquanto a podridão miserável que acorrenta o espírito
Numa cova escura jaz