Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

domingo, 8 de novembro de 2015

Extinção



A janela abre-se sobre o abismo triturador de energias
E as asas do mostrengo atravessam o espaço negro do nada
Que se projeta numa suspensa estrada
Na escuridão do tempo formador de estátuas graníticas
Intrespassáveis inalcançáveis megalíticas

Uma virose em forma de cruz pedestre
Provoca a floração das cores
Nas fissuras entreabertas ao sol
Encadeado pelo rastilho cósmico que desenha
A poeira do transitório da lava multimodelar
Incendiando multiformes
Indiferente ao pequeno e enorme
Ao inerte e ao andante inconstante

Os homens fecharam-se entre paredes em quadrado
Porque as coisas só assim pensavam que se encaixavam
E esqueceram o círculo a parábola
O ninho de proveniência temporal
Mantiveram as mentes no capcioso real
E não deslizando entre cidades alcandoradas
Permaneceram petrificados
Numa mistura de pó e vento
Sem dinâmica sem vida sem alento
E a visão do coração fechou-se
A porta da vastidão trancou-se
E o homem pintou o quadro a óleo da sua extinção
Nunca alcançando a derradeira dimensão