Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 21 de novembro de 2015

Cagarras




As cagarras vieram para ficar
Barafustam ameaçam
Escolhem a entoação da música do aço
Que fere os tímpanos e a mente
São cagarras de afiadas garras
Que escondem o medo e a cobardia dos traidores
Inventando danças de folclore dos pântanos
Buscam o prazer na desolação de outros pássaros
Espezinham saltitando no costado de outras perspetivas
Criando em seu redor a adoração de si próprias
E a lâmina vai direta à garganta de quem ousa enfrentá-las

Pobres caga garras!
Com o tempo que tudo espreme
Sentirão o cheiro nauseabundo dos seus ventres
E a lâmina que atiram
Virar-se-á contra as suas próprias cabeças de tremoço
Que incham porque só têm aguadilha dentro
Nem mais nenhum elemento!



Simplicidade



A criatura humana deixa-se encantar pelo colorido da cena
Pelas personagens amorosas da sedução aparentemente plena
E distancia-se do estado de plenitude do Eu
Como união de ambiguidades
Pois somos o todo que arrasta consigo a união dos opostos
Numa erupção de vivências e incandescências
Multiplicidades de sentires e irreverências

Devíamos sentir-nos simples como a água do mar
Lamber as lágrimas salgadas num misto de dor e prazer
De quem sabe que a vida é ilusão aparência de Ser
Porque vibra uma ligação inquebrável entre os humanos
Que acontece em forma de grito de união
Porque a separação só a sente quem não dialoga com o espelho
Quem não se sente genuíno e transparente
Quem não entra em êxtase perante um pôr-do-sol esplendidamente vermelho!

Oposição aparente



Quem disse que o escuro e o frio eram sinais de morte
Sem ida sem vinda sem passaporte
Ferro quente estilado ausente
Que trespassa o tempo bafejado pelo incoerente

Contentor de mensagem secreta
Gravada na armadilha da teia neuronal
Rende-se aos enleios da aranha paciente ardilosa
E aguarda a mão que desmonta em rede de pesca artesanal

No encruzamento das linhas permanece
A cruz simbólica do humano
As direções da Terra no Norte Polar
Do sul solar do surgimento da luz em brio
No sono gélido profundo apaziguando o cio

O aracnídeo tece em redor da janela aberta para a claridade
A névoa de cabelos brancos
Confundindo os ratos aguardando as lagartixas
Que perderam as caudas
Na fuga impensada da extinção iminente

O frio e o escuro selam o segredo da vida
E aguardam que a semente sobrevivente
Rompa a casca e se deixe arrastar na cósmica corrente
Onde a metamorfose desnuda os corpos
Na transmigração de energias
E estilhaça os campos quânticos da impermanência
Confundindo o humano que tem ganância
Pelo sagrado e profano perto do abismo da irreverência