Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 2 de janeiro de 2016

Rasgos no céu



O quadriculado surge no alto como denúncia do cárcere
Em que ressalto como fagulhas em expansão
E repentinamente em queda vertiginosa amorteço
Na mãe terra retalhada por cavalgaduras das trevas
E no leito frio e sombrio onde sem querer amoleço

Percorro vertiginosamente um horizonte eternamente renovado
E a canseira é tanta que direciono o volante da vontade
Para outras esferas e liberto-me do teimosamente desgastado

No espaço abrem-se brechas de fuga
Canais de expansão para refúgios de silêncio
Afastando o tilintar de teatros noutros estrados
Que renovam apenas as carantonhas de um carnaval
Enquanto os rasgos no céu
Bordam no azul aparente o véu
Dos segredos dos medos da perdição
E aguardam o último batimento
A última rodada num último brinde
Em direção à evasão

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Socorro



Respiro a brisa que perpassa pela janela virada ao desalento
Anunciando a violação dos sorrisos dos inocentes
Perscruto o céu cinzento e decifro os uivos das galáxias
Anunciando a consumição humana na matéria de perspetiva limitada 
Enquanto as toupeiras minam o chão que pisamos em passos incongruentes

Denuncio então os focos de tuberculose das hienas
Roubando a preza da caçadora que alimenta as crias
Que sobe à montanha mais fria
Que pela sobrevivência digna se digladia sem cobardia

Ergo os braços apontando fraturas de imbecilidade escrava
Mas não me adianta ninguém me encanta
Passei o rio do esquecimento e quero renascer na via láctea
Sob a forma de estrela irreverente
Anunciadora de outra espécie
Que na paragem do tempo não desfalece

Outro ser que se lava da pestilência anunciadora dos terramotos
O que se purga no lago da transparência
Aguardando rios de lava incandescente
Num novo mundo que não maltrata não assassina não mente

Ah brisa invisível leva a mensagem de socorro
À mais profunda via láctea
Porque os homens enlouqueceram
Transformaram-se em carneiros incapazes de se revoltar
Contra as bestas sem dois palmos de testa
E chapinham na imundície da barbaridade
Permitindo que as sombras da avidez asfixiem as flores
Derrubem as árvores e transformem as águas em lama
Onde já não há fogo amor ou chama


Contentores



A mão procura dentro da escuridão das sobras
Onde não há lugar para respirar
Entre fezes de crescimento rápido
E os portões que se encerram ao tempo de amar

Os brinquedos escondem as necessidades trogloditas
Das gentes famintas submersas pelo degredo
Porque os dedos de unhas negras poluídas
Esgaravatam nos buracos encenando jogos de escondidas
Enquanto os suínos se inundam de notas
E no tilintar falsete das moedas

Os contentores encerram o grito dos aflitos
O dióxido de carbono dos asfixiados pelo morder da língua
Pelas metralhadoras enfeitadas de diabretes fedorentos
Onde a lei da bala abalroa a melodia das andorinhas
Enquanto as crianças são massacradas e mortas à míngua

Os contentores fechados a cadeado
Que se perdem no mercado inundado de penúria
Transportam o selo da morte da amargura
Conduzem pela guilhotina ao holocausto subtil
Anulando o riso o abraço e a brisa primaveril