Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Ao encontro da Terra




Sinto a metamorfose interior a revolver-me as veias
Enquanto o batimento cardíaco anuncia o caos
Em que os membros se deslocam no chão árido
De um respirar das estepes onde os espinhos sobrevivem
E os escorpiões espetam os ferrões venenosos nos seres ociosos

A metamorfose consome o oxigénio que me reprime
 Me bloqueia os alvéolos pulmonares
E me faz ambicionar outras mudanças
Outras presenças mascaradas de ausências

Ao encontro da Terra desço planando ao útero terrestre
Onde as sementes germinam em tentáculos de verde vida
Sou planta que se infiltra no chão quente
E as paredes altas acolhem ainda o querer
De uma vontade que se estende ao ventre

Enquanto o sol no alto da garganta rígida
Se transforma em alimento
O musgo acaricia a rocha entre gotículas de água
Que nutrem o ninho
E as folhas servem com delicadeza
O meu degustar de arminho

Contemplo o altar no centro fundo
Do canal de iluminação vertical
E o nutrimento cintila no ar
Qual metamorfose de sustento
Toco ao de leve na cripta fria
Não tenho corpo nem mãos
Não estou dentro de qualquer invólucro
Mas rodopio em serenidade
Ao encontro da leveza etérea
Sem desejos sem fome
Sem conflitos nem guerra


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