Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 9 de janeiro de 2016

Autonomia




A autonomia concluiu que se bastava e de nada precisava
Nem o diálogo queria com a heteronomia
Era fresca vaidosa prazenteira dançarina e orgulhosa
Não dependia de coisa alguma
Nem do calor nem do frio nem da teia neuronal
Nem de braços nem de pernas nem bocal

Não necessitava dos elos de ligação
Que eram para ela um enfado degradado
Apenas algo faiscante um olhar para dentro sedento
Nem as correntes magnéticas a desestabilizavam
Nem o movimento de rotação
Que para ela era pura ilusão
Não queria mistura nem toques
Nem trocas nem aberturas
Nem frestas nem raízes nem miscigenação
A autonomia era a imagem da beleza solitária
De envergadura cósmica
Não se pautava pela atração
Mas brincava encantada com o constante
Ir e vir pendular sobre ela própria
Nem tão pouco queria saber dos amplexos da translação

A heteronomia prontificou-se a dar-lhe uma luz
Na sua teimosa ignorância
Pois que autónoma é sinal de dúbia crença
Porque a dependência cósmica
É uma manta de retalhos inacabada
E há sempre um parecer estético e ético
A adicionar em jeito lúdico  à fachada

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